domingo, 22 de outubro de 2017

AUTUMN IN NEW YORK


O «Autumn in New York» é para mim o sstndard mais bonito... O Wynton Marsalis disse um dia que nunca se ouviu jazz até se escutar a Billie Holliday a cantar o «Autumn in New York».

Salvador Sobral



sábado, 21 de outubro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Deixa-me dizer-te os meus silêncios, sei que um dia os vais conseguir ouvir.

Ana Margarida de Carvalho em Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato

Legenda: Fotografia de Jonathan Rauch

OLHAR AS CAPAS


A Roda da Fortuna

Roger Vailland
Tradução: Augusto Abelaira
Capa: Sebastião Rodrigues
Colecção Sucessos Literários nº 23
Editora Ulisseia, Lisboa, 1961

- Viva! – Exclama Milan ao passar.
- Entre e beba um copo da rija – propõe Augusto.
- Não tenho tempo – diz Milan
Mas fez um desvio para ir apertar a mão de Augusto.
- Não tenho tempo – repete -, vou encontrar-me com Roberta.
- A senhora Milan é uma mulher às direitas – diz Augusto.- Uma mulher que vale um homem.
- Com efeito – responde Milan.
- Eu – continua Augusto – sou sozinho. Não é agradável estar sempre sozinho em casa.
- Nem sempre é agradável estarem dois…
- Não é agradável dormir sozinho – insiste Augusto.
- Terrível Augusto – diz Milan.
- Não tenho jeito para conquistas – diz Augusto. – Tenho as mãos muito pesadas.

PEÇO-LHE A MAIOR PRUDÊNCIA QUANDO ME ESCREVER


Carta de Paris, s/d, escrita de Paris, para Jorge de Sena.
Em Março de 1962 Sophia, juntamente com outros escritores portugueses, Alexandre O’ Neill, Agustina Bessa Luís, Urbano Tavares Rodrigues, Natália Correia, José Cardoso Pires, António Pedro, Ilse Losa, esteve em Florença a assistir ao Congresso da COMES (Comunidade Europeia de Escritores).
Sophia diz a Sena que pensava ir assistir a um congresso literário mas foi mais político que literário.

O Congresso ara anti-fascista – coisa com que concordo mas os métodos usados foram fascistas, mal educados e policiais. Que haverá por trás disto tudo..Todo o ambiente do Congresso foi de nervosismo e de desconfiança e eu sem o Francisco ao meu lado e sem mesmo ter combinado com ele qual a linha a seguir senti-me verdadeiramente só num mundo de intrigas que não é o meu. Muita falta me fez ali a sua presença.
Criaram à volta da Agustina um clima de suspeita e inquisição. E isso foi-me dito por uma pessoa direita e de carácter: Disseram-me que eu a devia abandonar pois o facto de eu andar com ela me comprometia. Como você sabe eu não sou capaz de abandonar nenhuma pessoa que está só e que é injustamente acusada e perseguida na sua liberdade.
(…)
Estive com o Murillo Mendes com quem conversei mas não tão longamente como seria necessário, ele nervosíssimo, eu exausta. E sendo as minhas ideias sobre política tão próximas das do Murillo creio que el não entendeu porque razão eu acompanhei humanamente a Agustina. Aliás o clima que se respira na Europa é de violência, desequilíbrio, paixão, falta de serenidade. Penso que vão acontecer as coisas mais graves mas esta atmosfera de desconfiança é já de si gravíssima. Nada está esclarecido e o esclarecimento parece impossível. Faltou-me gravemente não ter aqui o Francisco. A nossa vida é cada vez mais engagée na luta que você sabe mas a oposição está cheia de aventureiros que sujam e confundem tudo. Está também cheia de tontos.
Há muito que não recebo notícias suas. Passaram por Lisboa uns brasileiros que vinham da sua parte mas não tiveram tempo para falar connosco.
Peço-lhe a maior prudência quando me escrever.


Legenda: imagem obtida em PretoBranco

UNS PARTEM, OUTROS CHEGAM


Chama-se Svilar, é belga, um puto com cara de anjo,o mais novo guarda-redes a actuar na Liga dos Campeões, estreia na passada quarta-feira na Luz frente ao Manchester United.
Uns partem, outros chegam e Svilar é mais um motivo para ver os jogos do Benfica.
Não esquece aquele pedido de desculpas pelo frango que permitiu o golo do Manchester.
Fiquei pele de galinha, a lágrima a correr.
Temos homem!

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

ETECETERA


Francisco George, que cumpriu hoje o seu último dia como diretor-geral da Saúde, por atingir o limite de idade, partilhou com dezenas de individualidades e dirigentes do sector, assim como representantes parlamentares, ex-ministros da Saúde, e o actual, os marcos de uma carreira de 44 anos dedicada ao Estado.

Disse um dia: «não vacinar os filhos é como infligir maus-tratos, porque os pais têm o dever de proteger os filhos.»

O acontecimento que mais o marcou a nível mundial foi a descoberta da sida, tendo trabalhado com alguns dos primeiros casos, e o surto da bactéria legionella em Vila Franca de Xira, a nível nacional.

Presente na sessão de homenagem estava Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, e foi a ele que Francisco George dirigiu um desafio no sentido da Assembleia da República alterar a Constituição e tornar possível um cidadão doente ser obrigado a tratar-se para evitar epidemias.

PESCA DA SARDINHA

O parecer do Conselho Internacional para a Exploração do Mar indica que a pesca da sardinha deverá ser proibida em Portugal e Espanha em 2018. O stock de sardinha tem vindo a decrescer de 106 mil toneladas em 2006 para 22 mil em 2016.

SÓ ARTISTAS!...

Madonna está interessada num palacete de 15 milhões de euros na zona de Paço de Arcos mas primeiro quer viver no local "à experiência", durante um ano.

O proprietário recusou a proposta.

TANCOS

O material de guerra desviado de Tancos encontrava-se num descampado na Chamusca.

O achado não resultou de qualquer investigação mas de uma chamada telefónica anónima.

Continua a ser uma história muito mal contada.

A CIA DESPEDIU LULU

A CIA anunciou na quarta-feira que despediu uma jovem cadela do programa de deteção de explosivos K9.

A justificação?

Lulu não mostrava interesse ou jeito para o trabalho.

Lulu, uma cadela labrador de cor preta que pertencia ao grupo de cães do programa K9, deixou bem claro que não estava interessada em procurar explosivos.

A história tem um final feliz: Lulu foi adoptada pelo seu tratador.

«Vamos perder Lulu, mas esta foi a decisão certa para ela. Desejamos-lhe o melhor na sua nova vida», concluiu a CIA no comunicado

BANCA

Despesa com os três veículos financeiros nascidos dos escombros do BPN ascende a 641 milhões. Mais quatro veículos do universo Banif levam 372 milhões. E cinco sociedades ligadas ao antigo BES mais 3,6 milhões.

As três grandes falências bancárias dos últimos anos - BPN, BES e Banif - vão implicar uma despesa superior a mil milhões de euros, mostra a proposta de Orçamento do Estado para 2018.

JOSÉ SÓCRATES

A Ordem dos Engenheiros emitiu um comunicado onde esclarece que José Sócrates não é engenheiro. A informação surge na sequência de um "inusitado número de interpelações e pedidos de informação" de membros da instituição e de outros cidadãos.

A Ordem dos Engenheiros vai ainda alertar a Assembleia da República para o facto de, na biografia do antigo primeiro-ministro, constar que este é engenheiro.

A pergunta é simples:

Porquê só agora?

Não gosto da pessoa, nunca gostei do político, mas custa ver, estando o homem no chão, todos desatarem aos pontapés.


A ordem, quem quer que seja, não teve o tempo mais que suficiente para saber que Sócrates não era engenheiro?

OLHAR AS CAPAS


Enseada Amena

Augusto Abelaira
Capa: José Cândido
Livraria Bertrand, Lisboa s/d

- Arriscados a uma sociedade em que as maiorias serão educadas apenas a desejar automóveis e a ignorara a arte, a ciência, a filosofia, a própria política… Sem dúvida é preferível um frigorífico, mesmo sem arte, à miséria também sem arte, que assim sempre viveram até hoje quase todos os homens. E vivem ainda por cá… Mas pode ser esse o nosso objectivo? Aproveitar o progresso das luzes para nos conformarmos com as imbecilidades da televisão?
- Não sei… Que sabemos nós dos fins do homem? Talvez estejam biologicamente feitos para ser cães de luxo e para ter dono… Talvez os quartetos de Beethoven ultrapassem a nossa medida, sejam um absurdo disparate. E que a televisão, sim!

TAMBÉM NÃO REPARO NO AR QUE RESPIRO


27 de Dezembro de 1969

Abro a Rádio. O terceiro acto de O Cavaleiro da Rosa de Strauss. O peso de uma voz alemã com arrebiques a tentar ter a leveza austríaca.
Indigestão de chouriços de tédio em três por quatro.
Prefiro a Viúva Alegre.
                                                              
                                                             *

- Pai: já reparaste que tens a rádio sempre. Não te cansas de ouvir música?
- Às vezes nem a oiço. Bem vês, também não reparo no ar que respiro.

José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.

Legenda: imagem Shorpy

OLHARES


Lisboa. Portas do Sol.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Aprender a ouvir é mais difícil do que aprender a ler.

Luís de Sttau Monteiro em Angústia Para o Jantar

TALVEZ IRREAL E IDIOTA


28 de Outubro de 1935

A poesia começa quando um idiota diz a respeito do mar: «Parece azeite». Não é, de facto, uma descrição exacta de um mar bonançoso, mas o prazer de ter descoberto a semelhança, a exactidão de um liame misterioso, a necessidade de se gritar aos quatro ventos que de tal nos apercebemos.
No entanto, é igualmente idiota determo-nos aqui. Começada assim a poesia, é preciso terminá-la e compor uma narrativa rica de nexos e que equivalha a um juízo de valor. 
Esta seria a poesia-tipo, a ideia. Mas, habitualmente, as obras são feitas de sentimentos – a exacta descrição da bonança – que, de vez em quando, espumejam em descobertas de relações. Pode ser que a poesia-tipo seja irreal e que – tal como nós vivemos também de micróbios – o que até agora foi feito seja constituído por simples pedaços miméticos (sentimento), por pensamentos (lógica) e por nexos mal esboçados (poesia). Uma combinação mais absoluta seria talvez irrespirável e idiota.

Cesare Pavese em  Ofício de Viver

Legenda: pintura de Joaquin Sorolla

OLHAR AS CAPAS



Não Posso Adiar o Coração

António Ramos Rosa
Prefácio de Eduardo Lourenço
Capa: Raul Vaza
Colecção Sagitário nº 3
Plátano Editora, Lisboa, Junho de 1974

                                                                      a Alberto de Lacerda

A ciência das canções
o saber alegre
a vitória dos olhos sobre o rosto
o calmo suporte dum entusiasmo perpétuo
a tua nova medida que te pesa no futuro
o pequenino grão de fogo sob a cinza de vários anos
sustentando esta aurora ainda por nascer
dedos que desenhados fazem o gesto
da fluida pressão fraternal

Brusco passado liso no lago dum momento
que se renova interessante
ó brilhante segredo exterior
que ninho mais claro que o meu corpo em repouso
liberto de todas as esperas desesperadas
passado futuro
o mesmo círculo calmo
que o rubro núcleo do desejo liberto

irradia

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

ETECETERA



Estas são as primeiras páginas, de hoje, do Diário de Notícias e do Público.

O Presidente Marcelo abraçado a um velhinho. Os dois choram.

Mera coincidência, mas o sentido de ir ao encontro do que o público gosta de ver, lagrimazinha ao canto do olho, está patente.

Marcelo, como dizia Léo Ferre de si próprio, é um artista de variedades.

Sabe-a toda: anos e anos de exposição mediática dando catequese como comentador político.

Os jornais, as televisões, as rádios, fazem o resto.

O dia trouxe ainda a demissão, a seu pedido, da Ministra da Administração Interna.
António Costa não tinha outro remédio senão aceitar. O Conselho de Ministros do próximo sábado não poderia contar com uma ministra debilitada.

Dado o curto espaço de tempo, o Primeiro-Ministro recorreu ao seu núcleo duro para arranjar um substituto: Eduardo Cabrita, actual ministro adjunto, substituirá Constança Urbano de Sousa.

Uma escolha que aos olhos de muita gente se mostra pouco entusiasmante.

Mas o tempo urge e, por agora, não há espaço para percorrer outros caminhos.

Os partidos que apoiam o Governo são unânimes em afirmar que a mudança de rosto na pasta da Administração Interna, não resolve os problemas de fundo  que há muito existem na prevenção e ataque aos incêndios florestais.

O CDS apresentou uma moção de censura ao governo que será discutida na próxima terça-feira. Moção de censura que será apresentada pelo CDS na quinta-feira visa «António Costa não está à altura para o exercício das funções que desempenha», afirmou Assunção Cristas, a raínha do eucalipto.

Paulo Portas, em Agosto de 2010, disse que « fazer politiquice com os incêndios é imoral e isto é tão verdade para a oposição, mas também para o governo.»

Ao PSD, não lhe restou outra saída, senão declarar que votará favoravelmente a moção do CDS.

Pedro Passos Coelho, nos corredores da Assembleia,c disse aos jornalistas que António Costa deveria pedir a demissão de primeiro-ministro e que o governo não merece uma segunda oportunidade.

Vão ser muito duros os próximos tempos do Governo do Partido Socialista.

O Presidente da República, uma comunicação social hostil, uma oposição a sonhar com eleições antecipadas, não lhe vai dar um minuto de descanso.

Chegou o tempo do grande exame.

PSD

Afastado do partido desde 2014, ano em que foi expulso, António Capucho considera que se o PSD regressar «à sua matriz social-democrata» está pronto voltar a ser militante.

O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, será o presidente da Comissão de Honra de Santana Lopes, cuja candidatura à liderança do PSD será oficialmente apresentada no próximo domingo.

Rui Rio, um homem que quando houve falar em cultura fica à beira de um ataque de nervos, em entrevista à TVI, acusou Santana Lopes de abandonar cargos a meio («Não foi candidato em Lisboa porque dizia estar apaixonado pelo trabalho na Santa Casa, criando até um problema ao partido, afinal quatro meses depois vai deixar a Santa casa porque diz estar apaixonado pela liderança do PSD. Eu fico sempre até ao fim») adiantando ainda que Santana está manifestamente à sua direita.

David Justino, presidente do Conselho Nacional de Educação, que foi ministro da educação de Durão Barroso vai coordenar o documento estratégico com que o Rui Rio se apresentará às eleições directas para a presidência do PSD.

A função promete.

E NUNCA MAIS NINGUÉM OS APANHOU


Rómulo de Carvalho, nas suas Memórias, começa a contar aos tetranetos, algumas histórias do 25 de Abril:

A partir da vitória foi uma festa. Expulsos os governantes, com boas maneiras, os militares e o povo, com cravos vermelhos ma lapela ou nas mãos e até mesmo no cano das espingardas (por isso se lhe chamou a “Revolução dos Cravos”) trataram, de imediato, de promover a liquidação da odiada PIDE /Polícia Internacional de Defesa do Estado), com longo cadastro de crimes, de violências, de abusos de toda a ordem, com sede em Lisboa na Rua António Maria Cardoso. O ataque foi violento e sangrento com cinco mortos. No total a Revolução provocou seis mortos: esses cinco e mais um que morreu de indigestão no Parque Mayer a comemorar o derrube da Ditadura. Os pides foram encarcerados mas, graças à Providência, fugiram todos numa mesma noite, mais de cem, e nunca mais ninguém os apanhou. Se vos quiserdes divertir, meus queridos tetranetos, ide folhear o Diário de Notícias desses dias e aí, encontrareis, nas páginas dos anúncios, vários rectângulos em que se lê que Fulano de Tal vem declarar por este meio que nunca pertenceu à Pide. Bons rapazes.
Uma vez expulsos os governantes, os militares, promotores do acontecimento, entreolharam-se sem saberem bem o que haviam de fazer a seguir. Eles sabiam conspirar, sabiam defender io seu prestígio, sabiam actuar, sabiam tudo o que se presta para derrubar mas não para construir.
(…)
O que se passou a seguir foi uma balbúrdia que levou alguns anos a serenar. Muitos foram os partidos que então se organizaram, e cada um, com é óbvio, com o seu programa, o que provocou lutas permanentes e abusos de toda a ordem. O Zé Povinho, a quem tanto faz que os governantes sejam estes ou aqueles, desde que lhe satisfaçam os seus interesses, aproveitou-se da balbúrdia e entregou-se a toda a espécie de desmandos, de atitudes e de linguagem. Foi uma bela oportunidade para arranjarem casa de habitação de pedra e cal e os que viviam em barracas de madeira. Eu vi aqui no meu bairro uns indivíduos partirem os vidros das janelas de um rés-do-chão que estava desabitado, treparem para elas e ocuparem a casa. Quem ia na rua, como eu, olhou e seguiu, sem qualquer comentário.

OLHAR AS CAPAS


O Caso dos Dados Viciados

Erle Stanley Gardner
Tradução: Mascarenhas Barreto
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 115
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Meia-hora mais tarde, ela sentou-se perto dele, diante da pequena lareira. Falavam em voz baixa, esperando que o telefone tocasse.
Maquinalmente, Mason prendera na mão os dedos da jovem.
- Macacos me mordam se não estou a tornar-me romântico, com a idade – disse.
- Parece-me que este pequeno apartamento foi feito para nós os dois.
Com a mão livre, Della Street afagou os fortes dedos de Mason.
- Não falemos disso, Chefe – disse ela baixinho.
- O senhor é um lutador, um solitário; adora o risco e o combate. A casa só lhe agradaria nos primeiros quinze dias. Ao fim de quatro meses, julgar-se-ia numa prisão.
- Pois bem! – disse Mason.
- Estamos ainda nos primeiros quinze dias.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

OLHARES


Lisboa: Calçada de São Vicente.

OLHAR AS CAPAS


Conta-Corrente
4
1982-1983

Vergílio Ferreira
Bertrand Editora, Lisboa, Fevereiro de 1983

Escrever bem, escrever mal. Assentemos neste princípio: nem todo o tipo que escreve mal é estúpido; mas todo o tipo que é estúpido escreve mal.

ONDE A MINHA SOLIDÃO POSSA SER APENAS SOLIDÃO


Carta de Mário-Henrique Leiria, escrita em S. Domingos de Rana e datada de 29-30 de Novembro de 1961, para Isabel, a «Maruska querida»:

E isto, Maruska bonita, porque eu ando sempre só, sempre a ver ao meu lado o vazio de um espaço que já não existe. Esta tarde isto não aconteceu, estavas lá tu a cobrires totalmente com a tua presença real um fantasma que nem sequer veio. Creio que compreendes, Isabel, e que sabes com certeza que te amo. Isto que acontece comigo é apenas o sentir as mãos vazias e não poder ter nada onde as pousar. Mas acontece… Quando tu estás presente, querida, deixa de acontecer, mas o facto é que estou muitíssimo mais tempo só – completamente só – do que acompanhado. Por isso o escrever-te já é uma companhia, já é o sentir-te amanhã a leres o que agora te digo. Isabel, esta é uma das razões porque tenho de me ir embora… não suporto mais a solidão povoada que Lisboa me dá. Fui e voltei, é certo, porque afinal eras tu que eu desejava (e desejo) encontrar. Mas agora estou mesmo, mesmo no limite da resistência. Tenho que ir, ir para muito longe, para onde a minha solidão possa ser apenas solidão, sem memórias nem fantasmas. Depois, vem também o caso económico. Eu não quero continuar a viver assim: tenho que ir fazer qualquer coisa, que trabalhar mesmo duro dentro da minha especialidade… e aqui receio já não conseguir fazê-lo. É assim, Isabel; creio que compreendes. Não posso, não posso suportar mais as mãos vazias e o eco de uns passos que já se perderam.


Legenda: fotografia de Maxime Gréau

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

ETECETERA


Domingo trágico.

A catástrofe de um País em chamas, para cima de 500 fogos num só dia, alguns deles com mão criminosa.

Até este momento contam-se 36 mortos, 7 desaparecidos, 63 feridos.

Casas e fábricas destruídas, desemprego, desalojados, mortes, desaparecidos, feridos, bombeiros e populações impotentes para combaterem a fúria das chamas.

Vontade de ficar em silêncio.

Não é possível.

Na hora dos telejornais, António Costa falou ao País.

Nitidamente desgastado, não conseguiu transmitir um sinal de confiança.

Mas será o tempo de agir e não de palavrear.

ONE FICA MOGADÍSCIO?

Um atentado teve, ontem, lugar em Mogadíscio, capital da Somália, provocando mais de 300 mortos e cerca de 500 feridos. O ataque reivindicado pelo grupo islamista al-Shabaab aconteceu através da detonação de um camião carregado com cem quilos de explosivos.
Fica longe a Somália… e tudo isto nos passa ao lado…

LONGE É A VOSSA FACE


Pesa demais, senhor, o esquecimento.
Longe é a vossa face.
Sofrer é só o que a minha alma espera.
Corta-se o coração diariamente.

Até quando? Até quando?

Exijo uma resposta.

Antes de ver na morte adormecidos
os meus olhos.

Mário Castrim em Do Livro dos Salmos

OLHAR AS CAPAS


Férias de Natal

W. Somerset Maugham
Tradução: Leonel Vallandro
Capa: Bernardo Marques
Colecção Miniatura nº  11
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Charley hesitou. Não tinha sentimentos religiosos definidos. Fora educado na crença de Deus – mas ao mesmo tempo ensinavam-lhe a não pensar nele. Isso seria… bom, não seria precisamente má educação, mas um tanto pedantesco. Era-lhe difícil dar voz aos seus pensamentos, mas encontrava-se numa situação em que a linguagem mais mística chegava a parecer quase natural.
- O seu marido cometeu um crime e foi castigado. Isso parece-me justo. Mas você pode julgar que um… Deus misericordioso lhe exija expiação do mal feito por outra pessoa.
- Deus? Que tem Deus a ver com isto? Supões que eu possa ver a miséria em que vive a grande maioria da Humanidade e continuar a acreditar em deus? Supões que eu creia em Deus, que deixou os revolucionários matarem o meu pobre pai, um homem bom e simples? Sabe o que penso? Pois penso que deus está morto há milhões e milhões de anos. Penso que, depois de apanhar o Infinito e pôr em movimento o processo que resultou na criação do Universo, ele morreu, e que, pelos séculos fora, os homens têm buscado e adorado um ser que deixou de existir no próprio acto de lhes tornar possível a existência.

LUA ADVERSA


 Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...).
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...


Cecília Meireles

domingo, 15 de outubro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Mas hoje, não sei porquê, porque não havendo uma especialização da política, os políticos acham-se especializados, não há um curso de política. Não há uma especialização. Os políticos não são particularmente instruídos na própria política, eles estão instruídos na fórmula política, mas não na sabedoria.

Agustina Bessa-Luís em  Agustina por Agustina

NOS 95 ANOS DE AGUSTINA


Agustina Bessa-Luís, retida em casa, há longo tempo, por doença irreversível,faz hoje 95 anos.

A jornalista Lillian Ross, citada por António Mega Ferreira no JL, escreveu:

«Nunca se deve escrever sobre alguém de quem não se gosta.»

Nos antípodas das minhas ideias, nunca lhe percorri os romances.

Dizem-me que faço mal.

A ver vamos, como diria o cego.

No boletim de voto nunca coloquei a cruzinha no mesmo quadrado onde Agustina colocou o seu, mas terei que aceitar que escreve bem.

As ideias é que são o busílis da questão.

Agustina Bessa Luís no seu Caderno de Significados:

«Houve gente bronca que me relacionou, a torto e a direito, com a ditadura. Talvez por eu não gostar de manobras políticas e ter demasiado talento, um desperdício numa mulher, como ainda hoje se pensa.»

A Babel, editora que pertence ao ex-bancário Paulo Teixeira Pinto e Álvaro Sobrinho, um obscuro empresário de estranhos negócios, retirou os livros da escritora das livrarias e disse que não podia continuar a pagar tanto a uma escritora que vende tão pouco.

Lamentável!

Felizmente que Francisco Vale, da Relógio d’Água, chegou a acordo com a filha de Agustina e tomou conta da edição dos seus livros.

Enquanto crítico da Seara Nova, José Saramago debruçou-se duas vezes sobre livros de Agustina Bessa Luís:  As Relações Humanas e  Homens e Mulheres. 
Numa chamou “génio” a Agustina, noutra disse que Agustina “corre o risco muito sério de adormecer ao som da sua própria música”

Quem não achou piada alguma à história foi José Gomes Ferreira, possivelmente, por entender que José Saramago seria a última pessoa no mundo a chamar génio a Agustina Bessa-Luís. 

A 2 de Janeiro de 1968 escreve José Gomes Ferreira no 4º volume dos seus Dias Comuns:

«Quase todos os críticos têm chamado génio a Agustina Bessa Luís (verdade seja que alguns depois se arrependem; Gaspar Simões, Óscar Lopes, José Régio, sei lá quantos).
Agora, chegou a vez ao Saramago que, no último número da “Seara Nova”, não resistiu a proclamar: “como é possível não reconhecer e declarar que se há em Portugal um escritor onde habite o génio (vã esta palavra, ainda que perigosa e equívoca) esse escritor é Agustina Bessa Luís?»

A VERDADE NÃO EXISTE


Às vezes, nas canções, dizem-se coisas mesmo que apenas haja uma possibilidade muito remota de serem verdadeiras. Por vezes, dizem-se coisas que não têm nada a ver com a verdade do que queremos dizer, e às vezes dizem-se coisas que toda a gente sabe que são verdadeiras. Contudo, pensa-se que a única verdade no universo é de que nele a verdade não existe. O que quer que se diga, diz-se de um modo repetitivo e mecânico. Não há tempo para reflectir. Coseu-se, passou-se a ferro, embalou-se e está pronto para despachar, foi o que se fez.

Bob Dylan em Crónicas