segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

CHAPÉUS HÁ MUITOS!...


Estou a recordar-me de um acontecimento que em tempos me contaram como certo. Um dia um dos ministros teve um encontro em casa de Sua Excelência. Quando a conversa acabou Salazar conduziu o ministro à porta de saída da casa e estranhou que este não se dirigisse, nesse momento, ao bengaleiro onde deveria, à entrada, ter pendurado o respectivo chapéu. Salazar estranhou e perguntou ao ministro pelo chapéu, ao que o ministro respondeu que não usava. Salazar fitou-o de sobrolho carregado e disse: O quê?! Não usa?! Então passa a usar!
E o ministro voltou a usar chapéu.

Rómulo de Carvalho em Memórias

A CRIAÇÃO DO MUNDO


Olhou as mãos em concha e viu arredondar-se
um sonho dentro delas – um mundo
que ninguém podia adivinhar, pois dele
fariam também parte os magos e os profetas.

Abriu-as devagar e deixou cair as trevas como sementes,
para que então servissem unicamente de sombras
e prolongassem a memória das coisas por vir. Foi assim
que inventou a luz e separou um dia do seguinte.

Depois afastou o céu daquilo que viria a ser o mar,
como quem divide um lenço azul em dois e limpa
as lágrimas apenas a metade. No meio, deixou que
crescesse tudo quanto do chão quisesse escapar-se
para traçar a primeira geografia dos caminhos. E assim

descobriu a cor e encheu a sua paleta de animais
que rasgariam os céus, cruzariam os oceanos e
resolveriam as entranhas da terra na estação
das chuvas. Por fim, semeou pequenas clareiras

nas florestas, pedras nas vertentes das cordilheiras,
cristais de neve no contorno dos lagos, estrelas cadentes
na vizinhança do desespero e rios serpenteantes
entre as searas louras, mordidas por um sol que lhe caiu
quase sem querer dos dedos, mas lhes aproveitou o calor.

E, apesar da alegria que experimentou, sentiu que o seu
mundo era tão frágil que, se desviasse os olhos, tudo acabaria
por regressar ao pó, às trevas e ao verbo. Só por isso criou alguém
que também o visse e lhe dissesse todos os dias como era belo.

Maria do Rosário Pedreira em O Canto do Vento nos Ciprestes

PETIT PAPA NOEL


Pequeno Pai Natal, quando desceres do céu com os brinquedos não esqueças o meu sapatinho.

OUTROS NATAIS

domingo, 17 de dezembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Há quanto tempo não recebo postais. Uma carta de vez em quando, papelada da agência, das editoras, dos tradutores mas postais, postais-postais, népia. E aqueles que andam por aí, sei lá porquê, não me mandam nenhum. Ou mandam-se a si mesmos e acham que chega. E, em certo sentido, chega. Mas umas palavrinhas, num cartão, caíam bem, há alturas em que umas palavrinhas num cartão caíam bem. Não sei porquê mas caem bem.

António Lobo Antunes em Quinto Livro de Crónicas

ILUMINAÇÕES DE NATAL




Iluminações e animação na Praça Paiva Couceiro.

NATAL



Há um sapato pequeno para encher de brinquedos:
um sapatinho azul
como uma história antiga.

Há uma espera no olhar
da criança que espera
a sonhar cavaleiros e canções.

E os meus braços caem abertos,
paralelos à vida.

(As arcas da Índia
de sândalo e pérolas
ignoram a chama de um sapato frio.)

A noite envelheceu.
O sapatinho azul
(história antiga)
vazio de brinquedos,
cansado de sonhar,
adormece sem fé.

Fernando Guedes, poema tirado da Antologia Natal… Natais

Legenda. Não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

OLHAR AS CAPAS


O Enigma daVirgem de Ferro

John Dickson Carr
Tradução: Emílio Correia Ribeiro
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 79
Livros do Brasil, Lisboa s/d

O gabinete de trabalho do velho lexicógrafo corria a todo o comprimento da pequena vivenda. Era uma sala barrotada, a alguns metros abaixo do nível da porta, e as janelas da parte detrás, tinham gelosias e recebiam a sombra de um teixo, cujas ramadas brilhavam, agora, à luz do sol poente.
Existe algo de especial na beleza profunda e sonolenta do campo inglês; na relva verde-escura luxuriante, nas sempre-vivas, na torre pontiaguda e pardacenta da igreja, e na estrada branca e coleante. Para um americano que recorda as grandes rodovias alcatroadas do seu país, cheias de postos vermelhos de abastecimento e dos vapores do tráfego, o campo, na Inglaterra, tem sempre uma nota de encanto. Sugere um local onde toda a gente pode andar à vontade, até mesmo no meio da estrada. Tad Rampole olhava os raios do sol filtrados pelas ripas das gelosias, e as bagas vermelho-escuras brilhando no teixo, com um sentimento que só pode sentir, quem viaja nas Ilhas Britânicas. Uma sensação de que a terra é velha e enfeitiçada e uma impressão de realismo em todas as imagens fugidias e materializadas por uma ordem de magia. Mas esta velha terra britânica parece (incrìvelmente) mais velha ainda que as suas torres revestidas de trepadeiras. Os sinos, ao ocaso, parecem os sinos de todos os séculos. Há uma quietação profunda, por onde vagueiam os fantasmas e Robin Hood ainda não se afastou daquelas paragens.

O CENTENÁRIO DO GRAÇA


Fernando Lopes-Graça faria hoje 100 anos.
Foi um dos maiores maestros e compositores portugueses do século XX.
A sua vida foi uma longa luta contra a ditadura, o obscurantismo.
Esteve preso nas masmorras do Aljube e em Caxias.
Era militante do Partido Comunista Português.
Como escreveu José Saramago, quando soube da sua morte: «o querido Graça, o amigo do coração, o camarada fidelíssimo e leal.»

sábado, 16 de dezembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


O artista é como o porco, só é apreciado depois de morto.


Legenda: Jules Renard

E OS OLHOS DIZEM TUDO SEM PALAVRAS


É quase Natal.
Mário-Henrique Leiria está em S. Domingos, ano de 1961, 17 de Dezembro, «noite, claro», e anda às voltas com a sua solidão natalícia. Acende o fogareiro a petróleo, «até tem uma luzinha vermelha» e põe a rodar a 5ª sinfonia de Prokofiev:





Legenda: imagem Shorpy

ENTÃO, É NATAL!


A revista de Natal da Junta de freguesia da Penha de França.

PRELÚDIO DE NATAL


Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas

Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas

a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas

A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas. 


David Mourão-Ferreira, poema tirado da Antologia Natal… Natais

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Já nada será como dantes, diz ele, agora que se aproxima mais um Natal. Aliás, vendo bem, há muitos, muitos anos, que já nada era como dantes. E, como Sempre, nesta altura do ano, quando começam a acender-se as luzinhas das iluminações das ruas, quando as montras principiam a apelar ao consumo e as pessoas pensam em presentes, festas e reuniões familiares, abate-se sobre ele uma angústia grande, ao recordar outros tempos. Alguém poderia então perguntar: Que fizeste da tua juventude?

Eduardo Guerra Carneiro em Outras Fitas

A ESTRELA


Eu caminhei na noite
Entre silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava.

Grandes perigos na noite me apareceram :
Da minha estrela julguei que eu a julgara
Verdadeira sendo ela só reflexo
De uma cidade a néon enfeitada

A minha solidão me pareceu coroa.
Sinal de perfeição em minha fronte.
Mas vi quando no vento me humilhava
Que a coroa que eu levava era dum ferro
Tão pesado, que toda me dobrava.

Do frio das montanhas eu pensei:
«Minha pureza me cerca e me rodeia».
Porém meu pensamento apodreceu
E a pureza das coisas cintilava
E eu vi que a limpidez não era eu.

E a fraqueza da carne e a miragem do espírito
Em monstruosa voz se transformaram :
Pedi às pedras do monte que falassem
mas elas como pedras se calaram.
Sozinha me vi delirante e perdida
E uma estrela serena me espantava.

E eu caminhei na noite; minha sombra
De gestos desmedidos me cercava
Silêncio e medo
Nos confins desolados caminhavam:
Então vi chegar ao meu encontro
Aqueles que uma estrela iluminava
E assim eles disseram: «Vem connosco
Se também vens seguindo aquela estrela»
Então soube que a estrela que eu seguia

Era real e não imaginada.
Grandes e humanas miragens nos mostraram
em direcções distantes nos chamaram
E a sombra dos três homens sobre a terra
Ao lado dos meus passos caminhava
E eu espantada vi que aquela estrela
Para a cidade dos homens nos guiava.

E a estrela do céu parou em cima
duma rua sem cor e sem beleza
Onde a luz tinha o mesmo tom que a cinza
Longe do verde-azul da Natureza

Ali não vi as coisas que eu amava
Nem o brilho do sol nem o da água
Ao lado do hospital e da prisão
Entre o agiota e o templo profanado
Onde a rua é mais negra e mais sem luz
E onde tudo parece abandonado
Um lugar pela estrela foi marcado

Nesse lugar pensei: «Quanto deserto
Atravessei para encontrar aquilo
Que morava entre os homens e tão perto.

Sophia de Mello Breyner Andresen, poema tirado da Antologia Natal…Natais 

ILUMINAÇÕES DE NATAL


Os dias cinzentos e chuvosos não têm permitido andar pelas ruas a registar as iluminações de Natal na cidade.

Hoje recorro à árvore de Natal do Café Império, onde os bifes, ao contrário de outros como os da Portugália e da Trindade, continuam a manter a velha tradição.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

NATAL


A festa do deus alheio
A mim e a tantos homens
Passou.
Mas é profundo o grito
- É cada vez mais fundo –
Da festa que alguém, algures,
Nos negou.

Alberto de Lacerda  poema tirado da Antologia Natal….Natais  

Legenda: Postal pintado com a boca por J. Borek Unikowska

SARAMAGUEANDO


Estes pequenos filhos dos homens têm andado pelas minhas crónicas. Mas de crianças tenho falado como quem as conhece bem, só porque também por lá passou. E agora pergunto: que são as crianças? Dez mil pedagogos se preparam para me responder. Afasto de antemão as respostas, umas que já conheço, outras que adivinho, e torno a perguntar: que são crianças?
Que seres estranhos são esses que viram para nós os seus rostos frescos, que nos perturbam às vezes com um olhar subitamente profundo e sábio, que são irónicos e gentis, débeis e implacáveis, e sempre tão alheios? Temos pressa de os ver crescer, de os admitir no clã dos adultos sem surpresas. Somos impacientes, nervosos, porque estamos diante de uma espécie desconhecida... Quando passam a ser nossos iguais, falamos-lhes da infância que tiveram (a que recordamos, como observadores do lado de fora) e sentimo-nos quase ofendidos porque eles não gostam de ouvir lembrar uma situação em que já não se reconhecem. São adultos, agora: outra espécie humana, portanto.
Nessa infância está, por exemplo, a história que vou contar e que devo a um desses tais encontros de acaso. E depois de eu a reproduzir aqui, dir-me-ão se não tenho razões para insistir: é preciso cuidado com as crianças... Não o cuidado comum, que tende a prevenir acidentes, aqueles que aparecem sob esta rubrica nas notícias dos jornais, mas um outro cuidado, mais melindroso e subtil. Eu explico.
Uma professora mandou um dia aos seus alunos que fizessem uma composição plástica sobre o Natal. Não falou assim, claro. Disse uma frase como esta: «Façam um desenho sobre o Natal. Usem lápis de cores, ou aguarelas, ou papel de lustro, o que quiserem. E tragam na segunda-feira.» Assim ou não assim, os alunos fizeram o trabalho. Apareceu tudo quanto é costume aparecer nestes casos: o presépio, os Reis Magos, os pastores, S. José, a Virgem e o Menino Jesus. Mal feitos, bem feitos, toscos ou apuradinhos, os desenhos caíram na segunda-feira em cima da secretária da professora. Ali mesmo ela os viu e apreciou. Ia marcando «bom», «mau», «suficiente», enfim, os transes por que todos nós passámos. De repente... Ah, mas é preciso muito cuidado com as crianças! A professora segura um desenho nas mãos, e esse desenho não é melhor nem pior que os outros. Mas ela tem os olhos fixos, está perturbada; o desenho mostra o inevitável presépio, a vaca e o burrinho, e toda a restante figuração. Sobre esta cena sem mistério cai a neve, e esta neve é preta. Porquê?
«Porquê?», pergunta a professora, em voz alta, à criança. O rapazinho não responde. Talvez mais nervosa do que quer mostrar, a professora insiste. Há na sala os cruéis risos e murmúrios de rigor nestas situações. A criança está de pé, muito séria, um pouco trémula. E, por fim, responde: «Fiz a neve preta porque foi nesse Natal que a minha mãe morreu...»
Daqui por um mês chegaremos à Lua. Mas quando e como chegaremos nós ao espírito de uma criança que pinta a neve preta porque a mãe lhe morreu?

José Saramago, excerto da crónica A Neve Preta em Deste Mundo e do Outro 

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Mistério da Escada de Caracol

Mary R. Rinehart
Tradução: Erico Veríssimo
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 12
Livros do Brasil, Lisboa s/d


Eram mais ou menos oito e meia quando deixámos a sala de estar; e, ainda impressionados com a falência do Banco e com os outros acontecimentos que lhe diziam respeito, Helsey e eu saímos a dar um passeio pelos arredores. Dentro em pouco, Gertrudes seguiu-nos. «A luz está-se adensando», como escreveu Shakespeare referindo-se ao crepúsculo, sapos coaxavam, grilos cricrilavam, enchendo a noitinha de ruídos estridentes. Havia na paisagem uma sensação opressiva de solidão, a despeito de toda a sua beleza, Senti saudade das noites agitadas da minha cidade, do estrépito dos cavalos sobre o calçamento das ruas, das luzes, das vozes humanas, da algazarra das crianças que brincam… o campo oprime-me depois que a escuridão começa a descer. As estrelas, que na cidade ficam eclipsadas pelo fulgor das luzes eléctricas, aqui fora têm um brilho insistente, vivo. Quer queira, quer não queira, surpreendo-me, às vezes, a procurar no céu as que eu conheço pelo nome. Sinto uma coisa esquisita, quase desagradável…

QUEM SONHA COM A PAZ E A SEGUE


Escutem os humildes e alegrem-se.
Tirem do rosto todo o abatimento:
os ricos empobrecem e passam fome.
             
               Qual é o homem
               que ama a vida
               e deseja
               largos dias
               na sua prosperidade?
               Só quem sonha com a paz

e a segue.

Mário Castrim em Do Livro dos Salmos

NATAL


O Chefe de família limpou a boca ao guardanapo e afirmou
assim como dois e dois são quatro e não são outra coisa
 O Natal é o Natal e não é outra coisa antes pelo contrário
 E para provar o que dizia comeu uma asa de peru
com recheio de castanhas
e limpou os dedos gordurosos ao bordado da toalha
À volta da mesa metade da família discutia a mensagem
e comia
e a outra metade mais intelectual comia a mensagem
e discutia
sim tal não tal
sim tal não tal
não tal
não tal
Natal

Yvette Centeno, poema tirado da Antologia Natal… Natais

Legenda: fotograma de The Dead de John Huston

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Todas as manhãs, quando as dores físicas não me apoquentam, antes de dar início aos meus afazeres (de pobre escritor!), levo uma boa hora a reconciliar-me com a ideia de que me é indispensável continuar a viver.

José Riodrigues Miguéis em Aforismos &Desaforismos de Aparício

QUOTIDIANOS


Conversando com o teu pai em sonhos. Há muitos anos que ele te visita num quarto escuro do outro lado da consciência, sentando-se a uma mesa contigo para conversas longas e sem pressas, calmo e circunspecto, tratando-te sempre com amabilidade e bonomia, escutando sempre com atenção o que lhe dizes, mas, quando o sonho acaba e tu acordas, não te lembras de uma única palavra do que cada um de vocês disse.

Paul Auster em Diário de Inverno

NATAL... NA PROVÍNCIA NEVA


Recordação de neve na cidade:
às vezes os meus dedos procuravam
um conforto de infância ameaçada.

Nos bolsos esgarçados o cotão,
os restos de ternura nunca dada:
sempre se me fez longe o coração.

E o consolo perfeito, sem idade,
das coisas que há por dentro da lembrança;
recordação de neve na cidade:
foi antes do terror, da esperança.

Seja sempre quem sou esta distância
que muda em mim as coisas conseguidas
em dedos que procuram da infância
cotão, ternura, restos de outras vidas.

Luís Filipe Castro Mendes. Poema tirado da Antologia Natal… Natais

COMO UM PARAÍSO QUE EU TINHA DE ABANDONAR


A cena da música folk fora como um paraíso que eu tinha de abandonar, como Adão teve de abandonar o jardim. Era simplesmente demasiado perfeito. Dentro de uns anos desabaria uma tempestade de merda. As coisas começariam a aquecer. Sutiãs, cartões de recrutamento, bandeiras americanas, até pontes – todos sonhavam em pegar-lhes fogo. A alma nacional ia mudar e em muitos aspectos seria semelhante à Noite dos Mortos Vivos. A estrada que tínhamos pela frente seria traiçoeira e não sabia onde é que aquilo ia parara, mas meti por ela. Um mundo estranho acabaria por se revelar, um mundo tempestuoso com contornos desenhados pelos relâmpagos. Muitos não chegaram a perceber o que se estava a passar. Estava tudo em aberto. Uma coisa é certa, não só era governado por Deus como também não era pelo diabo.

Bob Dylan, parágrafo final de Crónicas