terça-feira, 24 de abril de 2018

CADA UM ESCOLHE O CAMINHO QUE QUER


Carta, sem data, de Mário-Henrique Leiria para a doce e maravilhosa Jezebel:

Chegou-me a tua carta ontem, tal como o teu desespero e a tua dúvida. Porquê, querida?
Afinal, sabes tão bem como eu que cada um escolhe o caminho que quer. Há caminhos que levam à torta de chocolate e outros que levam ao inferno. Quanto a mim, acho os segundos mais excitantes; pelo menos lá é quente e há gin.
Escuta, querida.
Não deves estar tão desesperada e tão duvidosa, até porque sabes perfeitamente que, se deixasses para trás os filhotes e o companheiro, ias passar a vida com tremendos casos de consciência. E isso era pior.
Claro que te explico isto com a normal e bruta indiferença que todo o mundo afrma existir em mim. Mas aí está: ei sou bruto e indiferente, tu não. A ti tudo te magoa e fere, a mim nada me atinge, como de costume.
Olha.
Gosto tanto de ti que até me parece que fui injusto quando afirmei que não tinha coragem para abandonar tudo e vir ter comigo. Coragem tens, e enorme. Só que não podes (não deves) fazê-lo, senão ias destruir-te. E, afinal, eu não quero a destruição de ninguém. Parece mentira, mas é verdade.

OUVINDO BEETHOVEN


Venham leis e homens de balanças,
Mandamentos daquém e dalém mundo,
Venham ordens, decretos e vinganças,
Desça o juiz em nós até ao fundo.
Nos cruzamentos todos da cidade,
Brilhe, vermelha, a luz inquisidora,
Risquem no chão os dentes da vaidade
E mandem que os lavemos a vassoura.
A quantas mãos existam, peçam dedos,
Para sujar nas fichas dos arquivos,
Não respeitem mistérios nem segredos,
Que é natural nos homens serem esquivos.
Ponham livros de ponto em toda a parte,
Relógios a marcar a hora exacta,
Não aceitem nem votem noutra arte
Que a prosa de registo, o verso data.
Mas quando nos julgarem bem seguros,
Cercados de bastões e fortalezas,
Hão-de cair em estrondo os altos muros
E chegará o dia das surpresas.

José Saramago em Os Poemas Possíveis

Nota do Editor:Manuel Freire musicou este poema. Ouvir aqui,

segunda-feira, 23 de abril de 2018

POSTAIS SEM SELO



Nem miragem, nem oásis, nem fortaleza de certezas, nem mar de angústias. Talvez um marco, o maior, o mais luminoso, nesta caminhada que é a vida vivida com os outros, sobretudo com os que nesse dia e nos seguintes se beijaram na rua, se disseram «tu» sem se conhecer e hoje ainda, quando ao domingo de manhã compram cravos para levar para casa não sabem comprá-los de outra cor que vermelhos.

Autor desconhecido

Legenda: fotografia de Alfredo Cunha

VELHAS CANÇÕES


Erguer a Voz e Cantar

Letra e música de António Macedo

Canta canta amigo canta
vem cantar a nossa canção
tu sozinho não és nada
juntos temos o mundo na mão

Erguer a voz e cantar
é força de quem é novo
viver sempre a esperar
fraqueza de quem é povo
Viver em casa de tábuas
à espera dum novo dia
enquanto a terra engole
a tua antiga alegri


O teu corpo é um barco
que não tem leme nem velas
a tua vida é uma casa
sem portas e sem janelas
Não vás ao sabor do vento
aprende a canção da esperança
vem semear tempestades
se queres colher a bonança


DE QUE METAL MEU CORAÇÃO É FEITO


Encontrar-me contigo não me basta
mas sim que me conheças. Eis aqui
a minha casa. Entra.
Vê como se está nela
e, nela, como somos.

Aqui nenhum irmão se calunia
nem a mentira manda. O homem falso
não se sente aqui bem. Cada manhã
fazemos da Nação o julgamento.

Tu saberás depois, ao encontrar-me,
de que metal meu coração é feito.

Mário Castrim em Do Livro dos Salmos

GIRASSÓIS


Adormecer sobre a profusão dos girassóis, pensando nos flancos menos expostos de outro corpo. Várias foram as negligências do olhar, bem pouco curioso para outra coisa que não fosse a nudez da terra, às vezes muito jovem, outras, fatigada. O desejo, só o desejo impede a perversão da alegria. E destas sílabas.

Eugénio de Andrade em Memória Doutro Rio

domingo, 22 de abril de 2018

POSTAIS SEM SELO


Acreditávamos – era isso. «Porque há-de haver um futuro melhor» (como escrevíamos em dedicatórias nos livros oferecidos), porque era preciso conquistá-lo… e era possível.


Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro

VELHAS MÚSICAS


ENCONTREI GENTE QUE SÓ CONHECIA DOS ROMANCES DE GORKI


Na Faculdade, pois, a política ilegal e meio-legal: eleições para delegados ao Senado Universi­tário (pela última vez), assembleias para a criação de uma Associação de Estudantes, que não havia e continuou a não haver, protestos contra a expulsão do Prof. Rodrigues Lapa. Ali conheci, enfim, aque­la que seria a minha companheira para sempre, nos bons e nos maus momentos. E nos péssimos também. Como o da grave doença revelada dezoito dias depois do nosso casamento (sangue no chão de tanta felicidade) e que durou três longuíssimos anos. Ela mantinha a casa, ela me inventava a es­perança. Misteriosamente. Alegremente, se assim se pode dizer. Coração mais cabeça e muita dedica­ção, eis de onde vêm os milagres.
 Mas voltando ainda à Faculdade. Não sabia on­de começava e onde acabava o amor, a luta pela li­berdade e pela transformação do mundo, a criação poética. Engolia o Altolaguirre, o Emilio Prados, o Lorca muito menos (nunca soube explicar isto, te­nha embora um poema que parece inspiradíssimo num dele mas não é: desconhecia ainda o belíssimo «eran las cinco en punto de la tarde»), o Rafael Alberti, mais que todos talvez. Sonhava declamar, como ele, um grande poema na frente de combate. A minha convicção era que versos de tal modo declamados (mas tinham de ser bons, era o que já pensava) fariam recuar os tanques do inimigo, quebrar grades de cadeias, erguer bandeiras com multidões de esfarrapados atrás delas. Armazenar os explosivos. Pegar fogo ao rastilho. Vieram-me dizer: «Foste falado nos interrogatórios desta noite. Põe-te a andar».
 Desapareci de Lisboa até serem libertados os in­terrogados dessa noite, meti-me no Alentejo, en­contrei gente que só conhecia dos romances de Gorki. Tratavam-me como um irmão, davam-me a chave da própria casa, «para se precisares, de noite». E não eram operários nem rurais. Um tra­balhava numa farmácia, outro nos Caminhos de Ferro, outro num escritório. Chamava-se este Mar­quês. Por meu intermédio entrou na actividade clandestina e, quem o suporia então?, seria morto anos mais tarde nas torturas da PIDE.
 Quantas horas tinha cada dia? Quantos éramos ao todo? Impossível sabê-lo. Sabíamos, sim, que a situação portuguesa não se podia suportar (e trinta e muitos anos mais a suportámos), que ela se in­tegrava, numa situação internacional a nossos olhos de leitura fácil, que obrigava a tomar e a fa­zer tomar partido. E que a única esperança brilha­va, muito longe, nesta frase do autor de Tomás Gordeiev. «Nasce um novo sol no coração do Ho­mem». Frase que forçosamente se confundia, para muitos de nós, com um país imenso, onde houvera a maior Revolução do nosso tempo, raivosamente defendido de múltiplas e simultâneas tentativas de invasão, heroicamente resistindo à fome, à neve, à falta de quadros superiores: «Proletários de todos os países, uni-vos!» País sobre o qual muito líamos e falávamos, sobre o qual afinal pouco sabíamos e era, seria o centro de tudo durante muitos anos.
 Ou se mudava o Homem, ou não se mudava nada. Era o que pensava então, é o que penso ho­je. Os versos do meu livro Poemas (36 a 38) disto falavam, os de Terceira Idade (82), também. E o mais que escrevi. Escrever é outra coisa («uma coi­sa é ver, outra pintar», Picasso), mas relaciona-se com tudo.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: Máximo Gorki

OLHAR AS CAPAS



Teoria da Fala

Gastão Cruz
Capa: Fernando Felgueiras
Cadernos de Poesia nº 24
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Julho de 1972

Canção da Ama

Quando as crianças cantam sobre a relva
e nos vales as vozes se confundem
as memórias da minha juventude
crescem e o meu rosto empalidece.

Vinde, já não há sol
e o vapor da noite alastra.
A vossa primavera e o vosso dia – em jogo foram gastos;
o inverno e a noite sê-lo-ão em disfarce.

sábado, 21 de abril de 2018

POSTAIS SEM SELO


Se não fosse o Tédio estaria completamente só.

José Gomes Ferreira enquanto cônsul em Kristiansund, Noruega, em Dias Comuns, 2º volume

A MINHA INACREDITÁVEL IGNORÂNCIA


Carta de António José Saraiva, datada de 1 de Dezembro de 1963, para Óscar Lopes:

Meu Caro

Escrevo-te já do hospital. A operação deve ser depois de amanhã (terça-feira). Entretanto tive alguns dias de descanso que o corpo e os nervos me andavam a pedir há muito tempo. É uma ocasião para ler, e a posição horizontal é para mim extraordinariamente estimulante sob o ponto de vista mental.
Uma das coisas que me acontece ultimamente é estremecer com a minha inacreditável ignorância. A verdade é que não conheço – e sobretudo não conhecia ainda há alguns meses – obras fundamentais, e por exemplo, só há muito pouco tempo me dei realmente conta do que é a literatura. Com algumas excepções, achava-me na situação de alguém que conhece as biografias dos músicos, as datas das inovações técnicas, etc., mas não ouve, não entende a música.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Aqui era o Quarteto.

Agora, é um estaleiro de obras onde irá nascer um bloco de cimento destinado a escritórios.

Inaugurado a 21 de Novembro de 1975, o Quarteto foi o primeiro cinema em lisboa com várias salas – 4 salas 4 filmes - que com o passar dos anos deixaram de reunir  condições de segurança: falta de saídas de emergência, de extintores de incêndio e de acesso para deficientes.

Não havia dinheiro para obras e a 16 de Novembro de 2007, Pedro Bandeira Freire fechou as portas a cadeado e entregou as chaves ao Município.

Cinco meses depois, Pedro Bandeira Freire morria no Hospital Santa Maria.

Tinha 68 anos.



O autor do projecto de construção do Quarteto foi o Arqt.º Nuno San-Payo, seguindo a ideia de Pedro Bandeira Freire. O edifício era constituído por quatro pequenas salas, com lotação de 716 lugares, distribuídas pela cave e 1º andar, aos quais se acedia através de uma escadaria decorada com dezenas de cartazes, depois de se ter franqueado o átrio ao nível do rés-do-chão, onde se situavam as bilheteiras e o bar. A fachada deste cinema era constituída por uma pala para anúncios, feita em estrutura metálica e revestida em material acrílico, que se iluminava e expunha os cartazes dos filmes em exibição.

Em 2012 a imobiliária admitia negociar os 1,5 milhões de euros pelo que restava do imóvel de três pisos, mas ninguém se interessou pelo negócio.


A 27 de Fevereiro de 2014 o Público noticiava que a Igreja Plenitude de Cristo, a estranha predilecção das seitas religiosas pelas salas de cinema, iria ocupar aquele espaço.

As obras chegaram a ter início, mas não mais se soube da concretização do projecto e o espaço voltou ao abandono.

Agora será mesmo um bloco de escritórios.

Restam as memórias de quem frequentou aquelas quatro salas.



É certo que nos últimos tempos tinham piorado as condições de projecção dos filmes e amiúde se ouvia a acção do filme que corria na sala ao lado.

Mas era um cinema.

Lembrando ainda o Pedro Bandeira Freire: «Há filmes bons e maus; os bons são os melhores».

ELEGIA PARA A JOVEM SUICIDA


A que se deu por rosa, a que por flor
escondeu  o nome de seu nome;
a que por Amadis e Galaor
matou a própria fome…

A que viveu em trevas e dizia
às flores, aos animais,
o lúcilo bom dia!
De quem sabe o navio, o porto, o cais…

A que, por Junho morno,
soube ofertar a carne sem pecado;
e, entre sonho e viagem sem retorno,
foi asa de avião despedaçado…

A que, de súbito, chorou
desenhando no ar o brando gesto inútil,
morreu esta manhã.
                                     Em voo cego rasgou,
Contra a vidraça, a túnica inconsútil.

Daniel Filipe em Pátria, Lugar de Exílio

sexta-feira, 20 de abril de 2018

POSTAIS SEM SELO


Existe, sim, uma esperança, mas não é para nós.

Franz Kafka, citado por José Tolentino Mendonça, numa das suas crónicas no Expresso.

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

TENHO O LIVRO À MINHA FRENTE


Chandler, Lettres.
Tenho o livro à minha frente. Releio, às vezes, uma ou outra carta. São cartas serenas, inquietas, tímidas, polémicas, orvalhadas de pudor. E de magia. A magia da escrita que ele confessa perseguir. Chandler fala dele, dos outros, de gatos, do seu trabalho. A arquitectura, a atmosfera, o tricot do romance policial. Philip Marlowe aberto de alto abaixo, como um boneco, exposto, depositado, transmitido. Mais um adjectivo: quotidiano. Saem das suas entranhas as vítimas de Sammy Glick, Sammy Glick ele próprio, seus compostos e derivados, a maratona incansável do sucesso, a Black Mask toda inteirinha, dinâmica, estereotipada, esquizofrénica, consumível, e que em Chandler atinge, através dos seus filtros verbais, aquele estádio superior que é o exercício equilibrado de uma paixão: o plano sólido da história, o encaixe de situações desencaixadas, o relance certeiro, o descritivo absurdamente minuciosos, o diálogo coruscante, os factos, a névoa dos factos, a rarefacção do conjunto, a elipse, a tecla silábica, the-la-dy-in-the-la-ke, a estúpida brutalidade, a humidade do beijo, a bala na têmpora, o enlace das aquisições, o desenlace, essa quase geométrica flor de papel pintada a sangue que é cada um dos seus livros.

DIFERENÇAS


Acontece que me tornei homem quando aprendi a estar só; outros, quando sentiram a necessidade de companhia.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

RETRATO


Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Cecília Meireles em Antologia Poética

quinta-feira, 19 de abril de 2018

POSTAIS SEM SELO


Quando se fala na igualdade dos homens, não se pretende dizer que não há diferenças entre eles, mas sim que devemos respeitar essas diferenças.

Augusto Abelaira em A Cidade das Flores

AQUELA CRIATURA QUE MUITO ESTIMEI



Chegamos ao ponto das Memórias de Rómulo de Carvalho em que o autor se prontifica em apresentar António Gedeão aos tetranetos.
Contará todo o percurso do poeta, como nasceu o pseudónimo, as peripécias do prefácio escrito por Jorge de Sena para a Colecção Poetas de Hoje da Portugália, outras venturas e desventuras, mas as primeiras palavras são sobre a morte de António Gedeão comunicada a Carlos Pinto Coelho:

Já vos escrevi tantas páginas e ainda não vos falei daquela criatura que muito estimei e que muito me ajudou a suportar os dissabores da existência. Quero referir-me àquele meu íntimo amigo, já falecido, de nome António Gedeão. É verdade que já me referi ao nome dele, aqui, nestes papéis, mas acidentalmente, sem lhe prestar atenção de maior. Falarei dele agora, com algum pormenor.
Há poucos dias esteve aqui em minha casa um homem da televisão, de nome Pinto Coelho, acompanhado de outros dois, um deles encarregado de me fotografar e outro de gravar as minhas falas. Dispuseram o material na sala do modo que lhes pareceu melhor, instalaram-me num “maple! E o jornalista iniciou a conversa perguntando-me pelo António Gedeão. Eu fiz um gesto triste com as mãos, encolhi os ombros, e respondi-lhe: morreu. Morreu?! Sim, morreu. E olhámo-nos em silêncio. Alguns dias depois lá veio a minha imagem na televisão dizendo que ele tinha morrido.

MAIS UMA TRISTEZA SEM FIM


Aqui era a Livraria Pó dos Livros.

Fechou portas no dia 31 de Março.

Lisboa continua a destruir-se, história e histórias espezinhadas pela especulação imobiliária.

Como posso escrever sobre o fecho de uma livraria? De um café? De um cinema?

São dores que acabamos por chorar sozinhos.

Dificuldades quase inexplicáveis.

Fui um dos últimos espectadores, mas, ainda hoje, passados 5 anos, ainda não escrevi nada sobre o fim dos Cinemas King.

Em Fevereiro, Jaime Bulhosa, gerente da Pó dos Livros, escrevia no blogue da livraria:

«Setembro de 2007, abrimos as portas, e já nessa altura planava sobre nós o abutre. Nunca passava para cá da linha da porta. No entanto, rondava de perto, dava uma bicada, ou duas, nos nossos pés e ficava inquieto à espera que chegasse a hora fatal, grasnando num som surdo, como só os abutres sabem fazer: «Quando é que chega o dia da liquidação total? Mais cedo ou mais tarde, todas as livrarias irão fechar».
Nós bem o tentámos enxotar para longe, mas ele voltava sempre. Olhava de viés, ao mesmo tempo que inspirava o ar, à procura de aromas de moribundo. Contudo, ainda não tinha chegado a nossa hora e, voou com notícias de defunto vindas de outras paragens.
Nos anos seguintes apareceu de novo, mas desta vez, acompanhado com mais amigos, urubus, corvos e outros necrófagos. Todos vestidos a rigor de plumas negras reluzentes, entoando já a marcha fúnebre de Chopim – tan, tan, taran–, «Quando é que chega o dia da liquidação total? Mais cedo ou mais tarde, todas as livrarias irão fechar». Porém, ainda não tinha chegado a nossa hora e voaram, outra vez, com notícias de defunto vindas de outras paragens.
Escrevi este texto em Março de 2011 e já previa este fim. É verdade chegou a hora da livraria Pó dos Livros «celebrar o dia da liquidação total». No dia 31 de Março de 2018, mais esta livraria passará a ser uma mera recordação, um pedaço de pó na memória de poucos.
Mais tarde escreverei sobre as causas e razões. Farei também os devidos agradecimentos a quem sempre nos apoiou, porque percebe qual importância da existência  de uma rede de livrarias independentes em todas as nossas vilas e cidades.
Até breve».

À agência Lusa, Jaime Bulhosa explicou: 

«Os motivos são os mesmos de sempre, de todas as outras livrarias que já fecharam. Em primeiro lugar, rendas altíssimas que não permitem ao negócio dos livros sobreviver, depois uma concorrência que é completamente desleal, porque é impossível concorrer com as grandes cadeias, com os descontos que eles fazem, e com as margens que nós temos, portanto as livrarias independentes estão em extinção».

A Pó dos Livros definia-se como uma livraria de bairro, independente, alternativa, com livreiros experientes.

Abriu portas na Avenida Marquês de Tomar, transferiu-se, mais tarde, para a actual localização, no n.º 58A da Avenida Duque de Ávila, na esquina com a Conde de Valbom.

Tinha um nome bonito com origem numa passagem de A Sombra do Vento, de Carlos Ruis Zafón, sobre um cemitério de livros esquecidos, cheios de pó, que recordou a Jaime Bulhosa uma história com seu pai, em que este lhe explicou que os livros com pó são os mais importantes, por serem aqueles que resistiram ao tempo.

Não compro livros em grandes superfícies, não vou à FNAC, não entro na Barata, nem na Bertrand porque pertencem a essa coisa que dá pelo nome de grandes grupos livreiros.

A Pó dos Livros era o meu porta-aviões.

Se não tinham qualquer livro que eu pretendia, prontificavam-se para, no mais curto espaço de tempo, estar nas minhas mãos.

Agora, sinto-me perdido sem o afecto que a Pó dos Livros me propoercionava e invade-me uma desesperante tristeza fria,

Hoje vendem-se livros com uma displicência que me horroriza,

Terei que dar a volta ao texto.

Como dizia o meu avô onde não há uma saída, tem necessariamente de existir uma saída.

Vou á procura, vou à procura, de pequenas livrarias espalhadas pela cidade, não são muitas, é certo, para não sentir o tal arrepio que Jorge Silva Melo sentiu quando viu que uma pequena livraria abriu um dia em Campo de Ourique, mesmo perto da casa onde vive, mas não chegou a estar aberta um ano porque se enrolou a comprar livros nas fnacs, nas amazons.

NOTÍCIAS DO CIRCO


O ministro das Finanças, Mário Centeno, admitiu que o Estado pode vir a apoiar a Associação Mutualista Montepio, em caso de necessidade, e adiantou que o Novo Banco pode precisar de injeções de capital em 2019.

O apoio do Estado à banca desde 2007 até 2017, um período de 10 anos, ultrapassa os 17 mil milhões de euros, segundo dados hoje publicados pelo Banco de Portugal.

Ainda há semanas se soube que o Novo Banco vai precisar de mais capital para cumprir os rácios de solidez financeira depois de ter apresentado os prejuízos mais altos da sua história recente: 1.395 milhões de euros em 2017. Esta perda obrigou a ativar o mecanismo de capitalização contingente previsto no acordo de venda da instituição à Lone Star, poucos meses depois de fechado o negócio. Vão entrar mais 792 milhões de euros.

Como escrevia um jornalista do Diário de Notícias:

«Assim também quero ser banqueiro!»

OLHAR AS CAPAS


Mefistófeles em Lisboa

Gomes Leal
Livraria Guimarães & Cª Editora, Lisboa, 1907

Aos Toiros Aos Toiros

Ródam trens com palreiras hespanholas
para a praça dos toiros, léstamente...
Um Bombita ou Guerrita certamente
terão moñas, charutos, gabarolas...

Ha vida, confusão, balburdia. – Lolas
o cavaleiro aplaudem rijamente,
emquanto o toiro diz pacientemente:
– Que mal fiz eu a estes patetólas?...

Teem elles brindes, premios, mil charutos!
Cá nós, porém, irracionaes e brutos,
sem fazer mal algum, farpa e garrócha...

Ora, qual d’estas cousas tem mais siso?
– O marrar, por ser toiro ou ser preciso,
– ou matar, sendo homem, por bambócha?...

quarta-feira, 18 de abril de 2018

POSTAIS SEM SELO


Há momentos em que a necessidade mais premente de um homem é ter um objecto de amor, um foco em que centralize as suas comoções difusas. E há também ocasiões em que a irritação, o medo da vida, as desilusões, tudo isso, inquieto como espermatozóides, precisa de achar uma saída no ódio.

Carson McCullers em  Reflexos nuns Olhos de Oiro 

Legenda: Carson McCullers

OLHAR AS CAPAS


5 Caixas = Morte

Carter Dickson
Tradução: Francisco Franco e José da natividade Gaspar
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 75
Livros do brasil, Lisboa s/d

O Dr. John Sanders fechou o laboratório à uma hora da madrugada. O problema ainda o atormentava: como é o arsénico fora deitado no sorvete? Tratava-se do caso Smith, sobre o qual tinha de apresentar um relatório no fim da semana. Sentia-se cansado; os olhos doíam-lhe devido ao longo esforço feito ao microscópio. Foi por isso que decidiu ir para a casa a pé e tomar um pouco de ar.
O Instituto Harris de Toxicologia fica na Rua de Bloomsbury. Sanders, como era o último a sair do edifício, fechou a porta à chave com o cuidado habitual. Uma chuva miudinha começou a cair quando ele entrou na Rua Great Russell. Sentia-se satisfeito com isso – era como se se tratasse de ar lavado. Aquele murmúrio da chuva era o único ruído que se ouvia na longa fiada de casas entre aquele local e a Avenida Tottenham Court. O reflexo calmo dos candeeiros realçava a escuridão das casas – excepto num ponto.