sábado, 19 de agosto de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Homem Que Sabia A Mar

Armando Silva Carvalho
Capa: Miguel Imbiriba
Publicações Dom Quixote, Lisboa Abril de 2001

- É aqui a famosa Casa Cor-de-Rosa?
Fala em francês, mas não parece pedante. Nem parece ter vindo para se sentar no rosto da Europa. E não grita. Apresenta-se.
- Sou Tana Macgrave. Marquei uma reserva há tempo para vir descansar no apocalipse e afinal acabei por vir, mas para trabalhar. João Silvestre não está?
Rebeca pensa um pouco, fixa-a, e depois reconhece o nome. E por cima das lágrimas, ri com uma tal frescura que faz chorar a própria actriz. Ela que só conseguia fazê-lo no palco ou frente às câmaras.
- João Silvestre foi ao mar. Ou antes, anda no mar. – Rebeca fez uma pausa. – Mas, por favor, madame, entre. A Casa Cor-de-Rosa estava à sua espera para se começarem as rodagens. Tem um bonito nome, o filme, Entre este Mundo e o Outro e Amor é Absoluto. Talvez um pouco comprido, não acha?
Foi a vez agora de Tana Macgrave sorrir. E dizer:
- Tem razão, Rebeca. É Rebeca, não é? Mas vai ficar mais curto na versão americana. Eles simplificam tudo. A Europa é que está cada vez mais complicada.
E entraram as duas para a sala e ouviram o mar em estereofonia.
Eu, na minha cadeira de rodas, continuei a pintar.
Mas elas não me vêem, pai Silvestre.

São Vozes.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

POSTAIS SEM SELO


Uma mentira pode dar meia volta ao mundo antes de a verdade ter tempo de calçar os sapatos.


 Mark Twain

OLHARES

DEI TUDO, RECEBI NADA


Carta de Mário-Henrique Leiria, datada de S. Domingos de Rana, 27 de Agosto de 1961, para Maria Isabel.

Aqui continuamos a caminhar no lodo. Espero deixar de caminhar neste lodo no dia 14. Irei com certeza caminhar noutros, mas nesse acredito não chegar ao fim do ano (e peço aos deuses reias do ainda mais real inferno em que vivo que me ajudem nesta crença). Espero e desejo ser eu próprio a brevemente mais um pouco de trampa de adubo, o que com certeza ajudará a crescer algumas couves alimentícias… se for possível que, entre elas, nasça também uma papoila bem vermelha, será uma compensação grande e suficiente…

Mário-Henrique passa a informar Maria Isabel que recebera carta da ex-mulher em que esta, apesar das eventuais súplicas de amor que lhe fizera, exige, mesmo, o divórcio.

Portanto, já não vale a pena desejar que tudo corra bem. O correr bem – ou seja, um rápido divórcio – é apenas o esmagar quase físico daquilo que eu desejava, isto é, tê-la comigo para uma nova vida. Peço-lhe apenas uma coisa, Maria Isabel: creio que nos demos razoavelmente bem no pouco tempo em que nos encontrámos e creio que você acredita um pouco em mim e sabe quanto amei – a amo desesperadamente, como uma maldição do inferno. aquela moça. Logo, peço-lhe que não entre em atritos com o meu advogado. A ele, direi o mesmo, Se fosse possível, eu nem teria advogado, deixava tudo ser feito por si Não quero que a Fipsy fique com qualquer coisa desagradável no processo, Ela feriu-me muito e, nesta última carta, ainda mais (que diabo, um homem pode ter cometido muitas faltas, mas nem todas – e as maiores – foram dele! E, no fundo, há um reles e ordinário coração que, nem por estar totalmente solitário, deixa de sentir e sangrar). Ela feriu e deitou sal na ferida, mas eu continuo a amá-la e não quero, não quero que haja qualquer coisa que lhe possa prejudicar o futuro. Não sei se você compreende esta posição: é quase cristã (afinal nós estamos muito próximo dos cristãos primitivos, tanto no amor, como na fé e na acção). Mas o que é com certeza, é amor como eu o compreendo: dei tudo, recebi nada. Ao fim de muitos anos de sede, pedi água: deram-me um copo de cinzas, mas deixaram-me sentir o sabor da água durante dois anos. Por esses dois anos em que pensei ser amado e ser feliz, quero dar agora o mais que posso.
(…)
É tudo.
Pessoalmente, tenho duas costelas (quase de carneiro) partidas e uma rótula fora do lugar. São as consequências da tal habilidade de trapézio voador (“The darning young man on the flying trapeze”; W. Saroyan. Se não conhece, obrigue-se a conhecer, que não perde nada). Esta habilidade foi forçada pela manobra inesperada de um estimado táxi, conforme lhe disse pelo telefone. Mas continuo de pé, que é como quero morrer. Que diabo, deixei-me um último prazer.

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos

Legenda: imagem Shorpy

OLHAR AS CAPAS



A Colina de Cristal

Baptista-Bastos
Capa: João Segurado
Edições O Jornal, Lisboa, Novembro de 1987

«Antigamente» - Diz ele.
Vai para continuar, Os seus olhos revertem até outras paragens, os pensamentos mergulham no caudal dos anos, os anos têm comprimento, e ele sabe que à medida que os amigos foram morrendo as trevas iam-se acumulando à volta.
Diz:
- Fiz muitas vezes o que era necessário; não o que estava certo.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

SOMOS UMA NAÇÃO DE IMIGRANTES


The Ghost of Tom Joad abordava os efeitos da crescente divisão económica das décadas de 80 e 90, dos tempos difíceis e das consequências sentidas por muitas das pessoas cujo trabalho e sacrifício criaram a América, e cujo esforço é essencial para o nosso dia a dia. Somos uma nação de imigrantes, e ninguém sabe quem são aqueles que passam hoje as nossas fronteiras, pessoas cuja história pode acrescentar uma página importante à história americana. Agora, nos anos iniciais deste século, tal como no virara do último, estamos de novo em guerra com os nossos «novos americanos», Tal como no anterior, as pessoas chegarão, passarão por dificuldades e preconceitos, combaterão as forças mais reacionárias e os corações mais empedernidos do seu lar adotivo e provarão ser resistentes e vencedoras.
Eu sabia que The Ghost of Tom Joad não atrairia o grosso do meu público. No entanto, estava certo de que as canções que dele constavam vinham conformar novamente o melhor que sou capaz de fazer. O álbum trazia algo de novo, mas fazia também uma referência às coisas que eu tentara defender e que ainda desejava ter como meus cavalos de batalha enquanto compositor.


Bruce Springsteen em Born to Run

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Hugo Correia Pardal foi, durante mais de quatro décadas, um dos mais importantes pedagogos do Reformatório de S. Fiel. onde desenvolveu uma obra ímpar de formação profissional de jovens desamparados,  com problemas familiares ou de integração social.

Do jornal Reconquista de Castelo Branco:

«Com 73 anos de idade, faleceu no dia 1 de Abril de 1976, o assíduo e estimado colaborador de Reconquista, de longa data, Hugo Correia Pardal. Uma das suas últimas sugestivas crónicas, a intitulava ele - como uma premonição - «São horas .. .» Era a evocação de um sincopado diálogo de dois velhos que, diariamente, no banco do jardim dos reformados se encontravam: «cá estamos'» ... e se despediam, «são horas .. .», até que um dia o duo se desfez. Um dos velhotes jamais voltaria. Em vão o companheiro o esperava. 'Não estranhou, contudo. É que os velhotes têm sempre consigo - assim terminava a sua crónica - a outra companhia que se lhes entremostra na presença de uma sombra em cada hora a seu lado mais íntimo e familiar. Por isso também ele não voltou, e Deus sabe porque abalando disse pela última vez, só para si e para mais nínguém: - «São horas.»

Na edição do Jornal do Fundão de 12 de Abril de 1997, o leitor António Alves Ribeiro recordava:

«Hugo Correia Pardal foi um grande poeta, professor e pedagogo! A sua poesia ou prosa, escritas sempre com tinta roxa e com aparos dos antigos, eram mensagens tão simples e significativas que mais pareciam a cartilha da verdade.»

A TRAGÉDIA DOS INCÊNDIOS


Portugal é o país da União Europeia com mais área ardida neste ano: 139.586 hectares. Quase um terço do total da área ardida nos 28 países da União Europeia: mais de 380 mil hectares.

Um novo máximo de incêndios foi registado no sábado, com 268 ocorrências, que mobilizaram 6.553 operacionais, resultado, para além de outros problemas, de décadas e décadas de desordenamento das florestas. 

A Polícia Judiciária comunicou a detenção de 60 pessoas pelo crime de incêndio florestal até ao dia de ontem, o dobro dos detidos que havia no período homólogo de 2016

Loucos da aldeia a quem deram dinheiro para provocara incêndios,  vinganças, tarados que gostam de olhar o espectáculo das chamas, gente descuidada, de tudo podemos encontrar na génese dos incêndios que assolam o País.


A imagem mostra o incêndio que, na terça-feira, destruiu o antigo Reformatório de S. Fiel, em Louriçal do Campo, Serra da Gardunha.

OLHAR AS CAPAS


Do Livro dos Salmos

Mário Castrim
Capa e Desenhos Rogério Ribeiro
Campo das Letras, Porto, Outubro de 2007

Todos à festa!

Vibra a lira, as harpas, os metais,
Tocai trombetas pela Lua Nova!

Pesados fardos sobre os vossos ombros
demasiado já foi. Pesados cestos
de areia e pedra andastes carregando
a levantar o corpo da pirâmide.
Hoje, vibrai as harpas, os metais.

Todos à festa!

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

POSTAIS SEM SELO


E alguém escreveu: saber que um livro novo nos espera em casa para ser lido, é dos melhores sentimentos!

Autor desconhecido

Legenda: Marilyn Monroe

40 ANOS


Quarenta anos sem o Rei.
Lido hoje no Diário de Notícias:

Desde 1977 até hoje, foram publicadas 94 compilações discográficas de Presley. O que permite dizer que, 40 anos depois de falecer, ele ainda figura entre os artistas musicais mais rentáveis do mundo. 


ESCOLHAS


À partida, tanto quanto posso recuar no tempo, a questão política está antes de começar a escrever. Ainda no liceu, quando fazíamos escolhas para jogar futebol, já fazíamos escolhas políticas. Eu lembro-me que só tive três colegas negros em cento e tal alunos. Mesmo assim quando fazíamos as escolhas para jogar pequenos jogos de futebol, ficávamos juntos, de um modo geral, por exemplo, Gentil Viana, Iko Carreira, na mesma equipa e os outros ficavam noutra equipa. Era uma escolha. Não percebo como, porque é aquela escolha em que se põe um pé à frente do outro, até que quem pisa escolhe primeiro… No fim dávamos conta que eram quase sempre os mesmos na «nossa» equipa. Numa dada altura, com 15/16 anos, houve um clivagem entre os que, na Mocidade portuguesa, escolheram ir para a milícia, para a parte mais militarizada, e os que escolheram ir para os desportos náuticos. E aí nós dividimo-nos. Depois fui-me dando conta da realidade com a leitura dos russos: Gorki, Turguêniev, Techkhov, Dostoievski… só depois Tolstoi… o melhor veio pela literatura.

José Luandino Vieira em Os Papéis da Prisão

OLHAR AS CAPAS


A Janela Alta

Raymond Chandler
Tradução: Almeida campos
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 155
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Eram duas horas quando regressei a Hollywood, arrumei o carro e subi as escadas até ao meu apartamento. O vento cessara completamente, mas na atmosfera havia a secura e a leveza do deserto. O ar no apartamento estava pesado e a ponta do charuto de Breeze tornara-o um pouco pior que pesado. Abri as janelas e deixei arejar a casa enquanto me despia e despejava as algibeiras do fato. Delas, entre outras coisas, saiu a factura de fornecimentos de artigos para dentistas. Continuava a ser uma factura passada em nome de um certo H. R. Teager para 15 kg de cristobolite e 12 kg de albastone
Pus a lista telefónica em cima da mesa da sala de estar e procurei nela o nome Teager. Depois a memória confusa transformou-se em imagem real. O endereço dele era 422 Wet Ninth Street. H.R. Teager, Laboratório Dentário, fora um dos nomes que eu tinha lido nas portas dos escritórios do sexto andar do Edifício Belfont quando havia descido as escadas de incêndio depois de ter descoberto o cadáver de Elisha Morningstar.

No entanto, toda a gente tem que dormir e Marlowe estava absolutamente necessitado disso. Fui para a cama.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

POSTAIS SEM SELO


Valem mais três horas adiantadas do que um minuto de atraso.


William Shakespeare

NOTÍCIAS DO CIRCO



Pedro Tadeu no Diário de Notícias

COMO SOBREMESA NÃO ESTÁ MAL!


Em 1979, o Diário de Lisboa, publicou em folhetim, O Imenso Adeus de Raymaond Chandler, numa tradução de Mário-Henrique Leiria. A apresentação do folhetim foi feita pelo Eduardo Guerra Carneiro com o título Com Chandler e Marlowe nos Bares do Cais do Sodré publicado no “Diário de Lisboa” de 31 de Março de 1979 e que o Eduardo nunca incluiu em nenhum dos vlivros onde reuniu crónicas e textos publicados na imprensa.

Começa assim:

Marlowe entra no “British-Bar”, despe a trincheira, sacode-a da chuva de Março que, em morrinha, como em Vigo ou no Porto, ainda pinga, atira o chapéu para o bengaleiro e pede um “gimlet” duplo.
Humphrey Bogart está ao balcão e sorri-lhe, de esguelha, com o paivante aceso ao canto da boca. A “magrinha” ainda não tinha chegado. Eu bebia gin tónico, numa mesa do canto com o Chandler. O Mário-Henrique Leiria não pôde vir: mandou recado a dizer para bebermos dois ou três copos por ele. Lauren Bacall chegou agora, senta-se à nossa mesa e pede-me um cigarro na sua voz rouca, inconfundível. Reparo que Bogey está com ciúmes. Como não quer a coisa, de uma velha telefonia vem uma música de piano: “Casablanca”. Afinal Bogart deve estar ainda à espera da Ingrid Bergman. Chandler, que nada tem a ver com isto, começa a falar da Cabeleira de Prata.
Interrompo Raymond para lhe contar uma história insólita, mas verdadeira. Esta, do parágrafo seguinte:
-Era um jantar em casa do Buda, ali junto à Escola Politécnica. Como de costume, raparigas bonitas, boa comida, muito vinho, muito álcool. Presente: o Mário Henrique-Leiria que traduziu o teu «The Long Goodbye». Conversas sobre a América do Sul, guerrilheiros, generauis de opereta ou de bananas, prisões, copos, a receita do «gimlet» que o Terry Lennox conta – partes iguais de gin e sumo de lima, mais nada. De repente – acredita, sócio! – a conversa começou a ficar tão quente, tão quente, que a gente foi à varanda p’ra apanhar fresco. Olhámos: a Faculdade de Ciências estava a arder!

Na notícia da morte de Mário Henrique-Leiria, que o Eduardo Guerra Carneiro escreveu para o Portugal Hoje, 14 de Janeiro de 1980, lembra o parágrafo atrás transcrito e acrescenta:

O que não escrevi faço-o agora – é que dizias, com o humor negro sempre engatilhado: «Como sobremesa não está mal!»

Legenda: fotografia de Rui Ochôa, Expresso

CANÇÕES QUE VIERAM DO NADA


Já não tentava captar o poder de expressão de uma ideia. Conseguia facilmente recusá-la e manter-me afastado. Já não me obrigava. Já não esperava voltar a escrever. Também já não precisava de mais canções.
Tudo mudou – numa noite em que, como sempre, todos dormiam e eu estava sentado à mesa da cozinha, com o horizonte em frente onde se só via uma camada brilhante de luzes. Escrevi cerca de vinte versos para uma canção chamada «Political World» e esta foi a primeira de vinte canções que escreveria no mês seguinte. Vieram do nada. Se calhar não as teria escrito se não estivesse acordado àquelas horas. Se calhar sim, se calhar não. Eram fáceis de escrever, pareciam fluir com a corrente do rio. Não que parecessem propriamente desmaiadas ou distantes – estavam mesmo a frente dos meus olhos, mas se não as olhássemos atentamente, desapareceriam.
Uma canção é como um sonho e faz-se tudo para que se realize. É como um país estranho em que se quer entrar. Pode-se escrever uma canção em qualquer sítio, num compartimento de uma carruagem, num barco, no dorso de um cavalo – estar em movimento ajuda. Às vezes as pessoas que têm o maior dos talentos para escrever canções não as escrevem porque não estão em movimento. Eu não estava em movimento em nenhuma destas canções, pelo menos, exteriormente. Mesmo assim fi-las todas como se estivesse. Coisas que vemos e ouvimos à nossa volta influenciam por vezes uma canção. A canção «Political World» pode ter sido inspirada por acontecimentos banais. Estava-se à beira de uma renhida corrida presidencial, não se conseguia evitar ouvir falar sobre ela. Mas eu não tinha interesse na política como forma de arte e penso que não foi apenas por isso. A canção é demasiado abrangente. O mundo político da canção é mais um submundo, não o mundo em que os homens vivem, trabalham arduamente e morrem como homens. Com a canção pensei que tinha atingido algo importante, Foi como se acordasse de um sono profundo e descansado, e alguém tocasse um pequeno gongo de prata e tudo voltasse à normalidade. Havia pelo menos o dobro dos versos que mais tarde foram gravados. Versos como: «Vivemos num mundo político. Bandeiras a voar ao vento. Vêm do nada – directas a ti – como uma faca a cortar queijo.

Bob Dylan em Crónicas


ONTEM LÁ EM BAIXO NO CANAL


Dizes que tudo é muito simples e interessante
isso torna-me muito melancólico, como se lesse um grande romance Russo
estou tão aborrecido
é quase como ver um mau filme
se não for, mais frequentemente, como ter uma doença aguda no rim
valha-nos deus que não é nada no coração
nada relacionado com gente mais interessante do que eu
yak yak
que pensamento divertido
como pode alguém ser mais divertido que o próprio
como pode alguém não ser
podes emprestar-me o teu quarenta e cinco
só preciso de uma bala de preferência de prata
se não se pode ser interessante pelo menos que se seja uma lenda
(mas odeio essa trampa toda)

Frank O'Hara em Vinte e Cinco Poemas à Hora do Almoço

SARAMAGUEANDO


Excerto da Opinião publicada em 6 de Fevereiro de 1973:

“Num livro publicado em 1933 por António Ferro estão escritas estas palavras de Oliveira Salazar, então e por muito tempo mais Presidente do Conselho: “É certíssimo que, dentro de vinte anos, o nosso actual conceito de liberdade de imprensa estará radicalmente modificado.” Passaram esses vinte anos, passaram quarenta, quase meio século, e a pergunta é inevitável: modificou-se o conceito de liberdade de imprensa? E porquê só o conceito? Seria isso bastante? Será isso bastante para que se crie “uma imagem de Portugal novo, não romântica, folclórica, patriótica ou provinciana”?

José Saramago em As Opiniões que o DL Teve

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

OLHARES


NOTÍCIAS DO CIRCO


Em Loures, há um candidato do PSD à Câmara Municipal que não gosta de ciganos.

O Líder do PSD, ontem no Pontal, saiu-se com esta:

 O que é que vai acontecer ao país seguro que temos sido se se mantiver esta possibilidade de qualquer um viver em Portugal?

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Ouve-se James Baldwin, quase a findar o documentário:

«Vocês inventaram o «nigger», pergumtem-se porquê.»

João Lopes no Diário de Notícias:

Eu Não Sou o Teu Negro surgiu nas salas portuguesas no passado dia 18 de Maio, tendo cumprido uma carreira discreta. Entre as estreias do mesmo dia, o vencedor das bilheteiras foi Alien: Covenant, o regresso de Ridley Scott às histórias de terror galáctico. Porquê tal diferença? Convém lembrar que o filme de Scott (belo espectáculo, não é isso que está em causa) foi lançado em 71 ecrãs do mercado, enquanto Eu Não Sou o Teu Negro ocupou apenas três... Como diria uma personagem de Billy Wilder, isso é outra história.



OLHAR AS CAPAS


Devia Ter Ficado em Casa

Horace McCoy
Tradução: Alberto de Castro
Capa: Sebastião Rodrigues
Colecção Sucessos Literários nº 26
Editora Ulisseia, Lisboa 1962

Toda agente estava a falar de cinema. Dois dos produtores estavam muito preocupados com a anunciada greve das estrelas e não hesitavam em dizê-lo. Mas o terceiro produtor, do outro lado da mesa, ria-se deles.
- Três mil dólares por semana que eles fazem, porque iriam para greve? – disse ele – Não sejam idiotas. Ninguém faz greve quando ganha tanto dinheiro
- Não podes desfazer-te da ameaça a rir.

- As greves são coisas de que percebo – continuou ele, inclinando-se sobre a mesa a gritar um charuto. – Olhem, as greves nunca são ganhas sem a opinião pública. Está bem. As estrelas fazem greve. E nós dizemos aos jornais: «Não compreendemos. Estamos atónitos. Estamos surpreendidos. Eles ganham de dois mil a cinco mil dólares por semana e não estão satisfeitos! Que querem eles? Condições de trabalho? Um mineiro de carvão passa o dia a cavar debaixo da terra, pelo que recebe três dólares por dia, talvez um pouco mais, talvez um pouco menos. Protesta ele? Cinco mil por semana e não estão satisfeitos!...» Então os jornais imprimem isso. O público lê. Dentro de pouco o público está a pensar que as estrelas não têm razão para fazer greves. Greves…pft!...

FARTO DA CANALHICE AMERICANA


Carta de Jorge de Sena, datada de 7 de Dezembro de 1973, para Eugénio de Andrade:

Com isto aqui, estou mais triste do que nunca. Os inimigos que há na alta administração empenhados em que o Português não exista ou não se desenvolva (é incrível mas é assim) preparam-se para dar-me um golpe tremendo, não renovando o contrato do rapaz que ensina a língua e é o meu braço direito. Que poderei fazer, sozinho depois com um eventual leitor português? É a cepa torta insuportável. A Literatura Comparada vai indo bem, mas tem-me custado arrelias e cabelos brancos sem fim. Estou literalmente farto da canalhice americana a todos os níveis. E só se vê tudo indo de mal a pior, com o insidioso avanço do autoritarismo fascista, e com um custo de vida que faz com que tudo quanto ganho mal me chegue para sustentar a família. Não sei que voltas dar – e de Portugal é o que se sabe. Estamos desesperados, a Mécia e eu.

Em Correspondência

Legenda: Santa Bárbara, Califórnia

TRUMPALHADAS


Sob o lema Unir a direita, a mobilização convocada pela extrema-direita norte-americana juntou no sábado, na cidade de Charlottesville, estado da Virgínia, nacionalistas de direita, supremacistas brancos, neonazis, membros do Klu Klux Klan vindos de todo o país.

A marcha, considerada pelo Southern Poverty Law Center, um dos maiores «encontros de ódio nas últimas décadas nos EUA», surge na sequência da decisão da Câmara Municipal de Charlottesville de retirar do centro da cidade a estátua de Robert E. Lee, general confederado na Guerra da Secessão, e de passar a chamar Emancipation Park ao parque que tinha o nome do general sulista.

Grupos antifascistas, que apoiam as decisões municipais, organizaram uma manifestação em resposta às dos supremacistas, tendo-se registado confrontos violentos. Depois de a Polícia evacuar o Parque da Emancipação, onde os neonazis pretendiam manifestar-se, uma viatura investiu contra um grupo de contramanifestantes, abalroando-os e matando uma mulher de 32 anos.

Levando bandeiras e escudos com simbologia fascista, e brandindo paus e bastões, grupos de neonazis ainda atacaram vários antifascistas espalhados pela cidade universitária da Virgínia, bem como alguns jovens e crianças negros que foram encontrando pelo caminho.


Donald Trump. De férias num dos seus campos de golfe, aproveitou a sua conta de Twitter para afirmar:

«Devemos estar todos unidos e condenar tudo aquilo que o ódio representa. Não há lugar para este tipo de violência na América. Estejamos Unidos!»

A mensagem teria de ser outra:  uma clara condenação da acção destes grupos de extrema-direita na cidade de Charlottesville.


Mas isso seria exigir muito a Trump que, duarnte a campanha presidencial, foi largamente apoiado por nacionalistas de direita, supremacistas brancos, neonazis, membros do Klu Klux Klan.