quinta-feira, 24 de maio de 2018

CANSAÇO


Não quero amar nem ser amado…
Quero ficar estúpido e cansado
a este canto, e só.

Batido pelo Vento,
sem conforto, sem pão, sem alegria.

E se eu chamar não venhas.
(Que eu não hei-de chamar-te…)

No entanto, Amor, não saias para longe.
É que eu posso, apesar de tudo quanto digo,
chamar por ti.
E era tão bom saber que me escutavas!...
E era tão bom sentir que perdoavas!...

Sebastião da Gama em Cabo da Boa Esperança

quarta-feira, 23 de maio de 2018

POSTAIS SEM SELO


É preferível o que está para acontecer do que aquilo que acontece.

Júlio Pomar

Legenda: pormenor da primeira página, de hoje, do Diário de Notícias

DAR É QUASE UM VÍCIO


Uma das leis cómicas da vida é a seguinte: é amado não quem dá, mas quem exige. Quer dizer, é amado aquele que não ama, porque quem ama dá. E compreende-se: dar é um prazer mais inesquecível do que receber; a pessoa a quem damos, torna-se-nos necessária, quer dizer que a amamos.
Dar é uma paixão, quase um vício. A pessoa a quem damos, torna-se-nos necessária.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

Legenda: pintura de René Magritte

OLHAR AS CAPAS



O Príncipe Joga e Ganha

John Creasey
Tradução: Mariana de Castro
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 77
Livros do Brasil, Lisboa s/d

-Rolly, porque não lhe diz o que ele quer saber?
- E vender a minha alma por um prato de sopa?
- E os outros? – disse ela encolhendo os ombros. – Conhece-os? Dizem-lhe alguma coisa? Tem realmente vontade de armar em D. Quixote? Na guerra, matam-se milhares de pessoas e não se pensa duas vezes nisso. A morte é importante somente quando se conhece a pessoa que vai morrer. Deixe de querer ser herói de um romance barato. Porque é tão obstinado?
Rollinson sorriu frouxamente e ficou contente em ter podido sorrir.
- Conheço alguns homens que morreriam de Rumpelmayer fosse buscar essa ninharia.
- Oh! – exclamou Camila. – E as suas vidas merecem ser salvas?
- Penso que sim.
- Mais do que a sua?

PHILIP ROTH (1933-2018)


Merecia ter ganho o Prémio Nobel da Literatura, talvez não o tenha ganho por ser judeu, mas isso agora não importa para nada: a Academia Sueca está, hoje, pelas ruas da amargura e o Nobel da Literatura nunca mais recuperará a eventual importância que o rodeava.
«Sabe o que aprendi sobre vocês, os ricos e simpáticos liberais que dominam o mundo? Não há nada mais afastado da vossa compreensão que a natureza da realidade», escreveu Roth em A Pastoral Americana.

MORTE E VIDA SEVERINA


- Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
Eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida.
Eu não conheço a resposta,
se quer mesmo que lhe diga.
É difícil defender,
só com palavras, a vida,
(ainda mais quando ela é
esta que vê, severina).
Mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espectáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
(que também se chama vida),
que ela mesmo, se fabrica,
vê-la surgir como há pouco
em nova flor explodida;
(Mesmo quando é tão pequena
a explosão ocorrida.
Mesmo quando é a explosão
como a de há pouco, franzina.
Mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.)

João Cabral de Melo Neto, final de Morte e Vida Severina em Poemas Escolhidos

terça-feira, 22 de maio de 2018

OLHAR AS CAPAS


Temas e Variações
Parte Escrita III

Júlio Pomar
Apresentação e Organização: Sara António Matos e Pedro Faro
Capa: Miguel Rosa
Edição Atelier-Museu Júlio Pomar, Lisboa, Setembro de 2014

Autobiografia

Em sete linhas o autor quis
arrumar o que as memórias recolheram
e em casá-lo nestas linhass pôs a teima
que põe em fazer coisas, vício

que mais que ofício é pura teima.
Nessas sete linhas quis mostrar
o pouco que o mundo lhe mostrou
e a que pôde deitar mão, ou desdizer

segundo as causas que o acaso quis
para mães das mais que vagabundas
filhas que nelas fez, suas
obras que negar não pode..

Júlio Pomar

Lisboa, 2004

JÚLIO POMAR (1926-1970)



Pronto, agora ficámos sem o Júlio Pomar.
Aperta-se o cerco…
Que dizer?
Brecht ajuda muito:
«Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis.»

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«ZAU ÉVUA (NORTE DE ANGOLA)
ABRIL-MAIO DE 1970 

O correio da guerra trouxe um livro. «Poesias Completas», de António Gedeão. «Para musicar. Um abraço. Cambezes». Quase automático. Gedeão é um dos poetas mais musicais (musicáveis) da língua portuguesa. E a sua poesia, minha velha amiga. Esses poemas, a angústia, o estar aqui, a viola, as noites, os estilhaços de um povo, o torniquete equatorial, a medicina artesanal, o resto, tudo tornaram fácil. Tão fácil, como sentir o arame farpado rasgando a pele dos sentidos. Tudo tomou, também, um repentino sentido. Não eram poemas isolados, mas uma história, o que estava ali escrito. E a história, e a poesia, eram demasiado belas para que a música as estragasse. Havia o Homem. Havia uma história. Havia um palco: a Vida. Eu daria apenas um pouco de música e um pouco de ordem. Mas, o importante, era o Homem. Mesmo à dimensão de uma rodela negra, num rodopio de 33 voltas por minuto.

Do início («numa qualquer manhã, um qualquer ser, / vindo de qualquer pai, / acorda e vai, / como se cumprisse um dever») até «vestidos de surrobeco / e acocorados no chão», vai um salto de 20 séculos. Um drama em tempo de LP. Um disco pensado alto. Este o esquema, o funil, o encurralar da ovelha. Sob uma macieira de plástico, o homem nascido-em-qualquer-parte diz donde vem e o que quer:

«Venho da terra assombrada
 do ventre da minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém».

Mas avisa:

«Não há poder que me vença
 mesmo morto hei-de passar"»

Assim começa a fala do homem nascido. O pior é que o mundo não é o que devia ser. Há o desencanto do desencontro. O diálogo não passa de monólogo. As palavras são, apenas, sons. Para isto, mais vale «morrer atolado / na mais negra solidão». (A esta indiferença, a esta fácil aceitação da fatalidade, chamava Roger Vaillant, em «La Loi», «se portugalizer»). No entanto, nem tudo está, ainda, perdido. Acredita-se, mesmo por detrás da angústia, das contradições e de um quotidiano feito de misérias e esperanças, que «todo o tempo é de poesia». Há uma dinâmica permanente entre «bombas que deflagram / corolas que se desdobram / corpos que em sangue soçobram / vidas que a amar se consagram». O Homem acaba por ganhar o desafio, palmo a palmo, dia a dia, calo a calo: «Tenho sofrido poesia... / dói esta corda vibrante / a corda que o barco prende... / se vem onda que a levante / vem logo outra que a distende / não tem descanso jamais». Uma vitória adiada. Um volte-face do disco, um percurso do geral para o particular. Entramos em Portugal.

Todo um (saudável) culto do passado, construído sobre um saudosismo que ainda dói – «Poema da Malta das Naus» – é, a um tempo, homenagem, crítica e incitamento ao Homem Português de ontem e de hoje. O marinheiro quinhentista «moldou as chaves do mundo», mas toda essa epopeia teve (e tem) o seu preço, o preço trágico de uma «lágrima de preta». Este o drama dos descendentes da malta das naus: a ciência diz-lhes que a lágrima não tem «nem sinais de negro / nem vestígios de ódio». Mas... e daí? De que vale a ciência da análise, se o Homem Nascido não está preparado para a aceitar? Bastará a ciência ao Homem para que ele se humanize? Filipe II (que aqui se cognomina de Manuel I) tinha tudo, tudo! «Mas o que ele não tinha / era um fecho éclair». É isto que dói ao Homem Nascido: o não ter coisas tão aparentemente simples e possíveis como um fecho éclair. Jamais a felicidade completa. Sobretudo por ser conseguida à custa da felicidade dos outros. «Lágrima de Preta» é o primeiro poema que, no disco, se dirige à mulher.

A Mulher Portuguesa, mulher em vias de desenvolvimento, é hoje, talvez, o exemplo recente de uma nova forma de alienação. Ao fazer-se uma (demagógica) promoção da mulher, inaugura-se um moderno processo de a escravizar: a escravidão pelo trabalho desumanizado. E escravidão não só à dimensão da sociedade, mas na intimidade da sua própria vida (trabalho, casa, filhos, marido, trabalho... um ciclo vicioso infernal que uma vez iniciado não pode parar). «Calçada de Carriche» é um hino à escravidão da mulher-mártir, frágil máquina suburbana que o quotidiano da cidade suga. Mulher, máquina, máquina, que o vertiginoso e breve amor dos domingos evade para as auto-estradas, na doce ilusão de o novo mundo dos sentidos não ter segundas-feiras...
A evasão dá-se. «Leonor, Leonoreta, fuge, fuge, vai na asa de lambreta» , com o único rumo de fugir a si própria, numa ilusória felicidade, fugaz como a paisagem que a lambreta rasga.

O cerco aperta-se. O Homem torna-se cada vez mais circunscrito. De um trilião de homens passa-se para o grupo e, finalmente, para o indivíduo, para o homem concreto, com nome, residência e tudo. «Álvaro Góis / Rui Mamede / filhos de António Brandão / naturais de Cantanhede...». Eles vivem, existem, são. Em Braga ou em Olhão, no Alentejo ou na guerra, eles lá estão! «Vivos», «vestidos de surrobeco» e «acocorados no chão», eles estão em toda a parte. No chão, mas ainda vivos... Eis a "Fala do Homem Nascido"!
ELE nasceu numa qualquer manhã e não há poder que o vença. Mesmo morto há-de passar!

Lisboa, Novembro de 1972.

Dois anos e meio passados, o disco fez-se.

No caminho ficaram muitas ideias, entre as quais o entusiasmo de amigos como o Rui Ressureição e o Manolo Diaz, que, comigo em África, quiseram esperar por mim. Como muitas vezes acontece, novas oluções surgiram, entre as quais a que o talento e a inteligência  de José Calvário trouxeram a todo este trabalho.
Que António Gedeão me desculpe algumas amputações que fiz aos seus poemas, determinados por razões musicais.

Que, dos erros que houver, me ataquem a mim.

P.S. – Para o Eduardo Cambezes;
           Para ouvir. Um abraço. Niza.»

AO TODO SÃO TRINTA


Foram trinta, como vos disse, os discos que fui reunindo com poemas meus, cantados, e com diferentes músicos e cantores. Depois do de Manuel Freire, o mais conhecido foi o de José Niza, deputado da nação e também músico. É um disco de grande formato, só com poemas meus, ao todo onze. José Niza estava na guerra de África, no norte de Angola, quando o correio lhe fez chegar as “Poesias Completas”. Foi essa a origem do disco, conforme o próprio conta e vem impresso na respectiva capa. Obrigado.
Luís Cília, músico e cantor, publicou em Paris, um disco de grande formato, intitulado 2La pésie portugaise de nos jours et de toujours”, com dois poemas do vosso tetravô: a “Fala do Homem nascido” (“Voix de l’homme né”) e “Dez reis de esperança” (“Deux sous d’espoir”), em 1972. Além destes contém poemas de outros autores, portugueses também.
E muitos mais discos se publicaram, um deles de um cantor célebre na época, entre nós, o Adriano Correia de Oliveira, de quem tenho três discos com poemas meus e de outros autores.
E etc. Ao todo são trinta.

Rómulo de Carvalho em Memórias

CALIGRAFIA


Aos hábitos me ligo. Os hábitos não têm porventura outra virtude senão essa:
a de convergir para a existência do nada.
Se, por exemplo, escrevo como quem desenha caracteres chineses para mim
                                                                                                     obscuros,
se me detenho (agora) no uso do não-uso, vulgar, duma letra,
se a circunscrevo, então, meditativamente, dubitativamente e com cautela, -
é porque tudo para mim me habitua a duvidar de mim. Menos os hábitos.
Porque neles é que eu me reconheço. Não me conheço em mim.
E dão-me – por momentos e reconfortantemente – a sensação de que escrevo
por linhas eternamente finas, delicadas, precisas,
toda a incerteza de que me constituo…
toda  a miséria dos meus olhos fechados.

Por isso aos hábitos recorro. Até ao hábito de gostar de ti.
Sem outra companhia que não seja
o não saber viver doutra maneira.

                                             Lisboa, 21 de Outubro de 1970

Raul de Carvalho em Um e o Mesmo Livro

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

OLHARES


No dia 22 de Maio, abriram-se as portas da Expo 98, a última exposição mundial do século XX.
Caramba! Como é que já passaram 20 anos?  

segunda-feira, 21 de maio de 2018

SE UM MORTO SE INQUIETA TANTO, A MORTE NÃO É DESCANSO


Como eu mesmo sempre fiz, responderá Ricardo Reis, e Fernando Pessoa dirá, Só estando morto assistimos, e nem disso sequer podemos estar certos, morto sou eu e vagueio por aí, paro nas esquinas, se fossem capazes de ver-me, raros são, também pensariam que não faço mais que ver passar, não dão por mim se lhes tocar, se alguém cair não o posso levantar, e contudo eu não me sinto como se apenas assistisse, ou, se realmente assisto, não sei o que em mim assiste, todos os meus actos, todas as minhas palavras, continuam vivos, avançam para além da esquina a que me encosto, vejo-os que partem, deste lugar donde não posso sair, vejo-os, actos e palavras, e não os posso emendar, se foram expressões de um erro, explicar, resumir num acto só e numa palavra única que tudo exprimissem de mim, ainda que fosse para pôr uma negação no lugar duma dúvida, uma escuridão no lugar da penumbra, um não no lugar de um sim, ambos com o mesmo significado, e a pior de tudo talvez nem sejam as palavras ditas e os actos praticados, o pior, porque é irremediável definitivamente, é o gesto que não fiz, a palavra que não disse, aquilo que teria dado sentido ao feito e ao dito, Se um morto se inquieta tanto, a morte não é sossego, Não há sossego no mundo, nem para os mortos nem para os vivos, Então onde está a diferença entre uns e outros, A diferença é uma só, os vivos ainda têm tempo, mas o mesmo tempo lho vai acabando, para dizerem a palavra, para fazerem o gesto, Que gesto, que palavra, Não sei, morre-se de a não ter dito, morre-se de não o ter feito, é disso que se morre, não de doença, e é por isso que a um morto custa tanto aceitar a sua morte, Meu caro Fernando Pessoa, você treslê, Meu caro Ricardo Reis, eu já nem leio. Duas vezes improvável, esta conversação fica registada como se tivesse acontecido, não havia outra maneira de torná-la plausível.


Legenda: pintura de Edvard Munch

NUNO BRAGANÇA


Nuno Bragança dizia-me sempre um simpático
«Olá, rapaz!» quando o apanhava na Trindade
em confidências alcoólicas com o Fernandinho Almeida.
Era já o fim da linha e não sei mesmo
se ele chegou a andar na carreira do 24.
Nas prosas se via o desespero, tal como a impaciência
com que escutava tiradas mais literatas.
Enraivecia por dentro, mordido por outros
deuses, venenos aziagos. Encontrei-o
uma vez à chuva, e perguntei-lhe: «Então?»
Respondeu: «Deixa-me estar nesta paragem.»
Era à porta de um hotel. Hesitava.
Sei hoje que talvez bastasse outra palavra
para a sua alma poder ainda ser salva.

Eduardo Guerra Carneiro em Contra a Corrente

Legenda: fotografia de Joaquim Lobo tirada da contracapa de DoFim do Mundo

domingo, 20 de maio de 2018

CARTA


Há muito tempo, sim, não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelhecí: Olha em relevo
estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que a sol-posto
perde a sabedoria das crianças.

A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
«Deus te abençoe«, e a noite abria em sonho.

É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.

Carlos Drummond de Andrade em Antologia Poética

Legenfa: pintura de Vanessa Bell

sábado, 19 de maio de 2018

ESTOU FARTO MESMO


Em 2 de Março de 1974, Mário-Henrique Leiria escreve à sua «Querida Beluska»:

Cá por casa tudo no costume chato.
Eu vou recebendo cartas anónimas, com ameaças por causa do que escrevo. No mínimo sou traidor e devo ser fuzilado. Rio-me à farta e deito os papéis ao lixo.
As velhas não há maneira de morrerem, e por isso, tenho de continuar a gostar delas. Lá vou às compras, de barrete russo enfiado na mocha, lá tento fazer o que posso. Estou farto, é claro.
Editoras pedem coisas. Não tenho nem quero dar.
As pessoas dantes nem ligavam ao Mário-Henrique, agora chateiam-me pelo telefone e até vêm, à caça do autógrafo. Mando à merda e desligo ou, então, mando dizer que saí com voz bastante alta para ouvirem. Estou farto mesmo.
Ainda não é hoje que vai a carta para o John. Pede-lhe desculpa, mas tenho andado tão desorientado em relação ao que devo fazer, que não consigo escrever nada. Como precisava de dinheiro, tenho estado a traduzir bandas desenhadas para a Arcádia. Tradução de M.-H. Leiria, estás a ver, não é? Isso ajuda à venda, agora. E até pagam que, afinal, é o que eu quero.


OLHAR AS CAPAS


Obra Poética
(1972-1985)

Nuno Júdice
Capa: Rogério Petinga
Quetzal Editores, Lisboa, Junho de 1999

A Imagem do Vento

para a Manuela

No princípio, desenvolveu a ideia de que o arco-íris era
uma ponte: aparecia sobre os barcos, no fim dos temporais,
e o marinheiro da gávea avistava uma mulher de cabelos
de ouro, agitados pelo vento, a atravessá-la; alguns desses
marinheiros enlouqueceram. Conheceu-os, durante os meses
em que estudou os costumes dos portos – sentavam-se à
parte, nas tabernas, e acendiam uma vela. Diziam que o brilho
da chama evocava os cabelos dourados dessa mulher; e
que o azul do álcool os fixava, como um olhar celeste.
Tentou, então, viver essa experiência: embarcou num velho
cargueiro e, durante dois ou três anos, percorreu os mares.
Mas nunca encontrou a deusa; nem os arco-íris formavam
o arco completo da ponte que imaginara. Também ele enlou-
queceu, e dizem que sobe ao telhado da casa nas noites
de temporal, e grita pelo sol, a quem dá um nome de mulher;
até ficar rouco e o trazerem para o quarto. Aí, até
adormecer, murmura esse nome sem corpo, sem imagem, sem luz.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

POSTAIS SEM SELO


O dinheiro. É por uma espécie de snobismo espiritual que pretendemos crer que se pode ser feliz sem dinheiro.

Albert Camus em Cadernos

E DANCEMOS


Despertem as harpas e os tambores
A espada já está nas mãos do povo.
É a hora da vingança.
Hora de pôr os príncipes a ferros
e de ler a sentença aos poderosos.
Despertem as harpas e os tambores
e dancemos.

Mário Castrim em Do Livro dos Salmos

Legenda: quadro de Pieter Brueghel

NASCESTE TU ONDE OS CAVALOS BEBEM


Nasceste tu onde os cavalos bebem,
onde os rios se viram para o vento
e o vento um ao outro se perseguem
até ao nó do seu sustentamento.

Vieste de onde a noite se distingue
tão lentamente em cacto e amarelo;
de onde a papoila aberta não se finge
outra coisa que o grito, a paz e o selo

dos elementos limpos, da alegria
do silêncio acabado de nascer
- tal como tu, que estás na periferia

cheia de centro, e força de viver
a hora longa do primeiro dia
na humildade firme de aparecer.

Pedro Tamen em Tábua das Matérias

quinta-feira, 17 de maio de 2018

OLHAR AS CAPAS


Lisboa e Outros Sapatos

José Carlos González
Prefácio: Urbano Tavares Rodrigues
Capa: José Araújo com base em desenho de Bernardo Marques
Colecção: O Campo da Palavra nº 10
Editorial Caminho, Lisboa Abril de 1980

Dístico

O poeta
é um homem que bebe imenso
o ar da vida.
Que entra tarde
e que sai cedo.
Que tem e que não tem medo
w só ser livre o ensina.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

POSTAIS SEM SELO


Quando te sentires com vontade de criticar alguém, lembra-te disto: nem todos tiveram neste mundo as vantagens que tu tiveste.

F. Scott Fitzgerald em O Grande Gatsby

Legenda: F. Scott Fitzgerald

OLHAR AS CAPAS



O Santo e os Anjos da Vingança

Leslie Charteris 
Tradução: Millôr Fernandes
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 19
Livros do Barsil, Lisboa s/d

No interior do carro, o homem vestido a rigor disse, com elegância:
- «Você é uma mulher extraordinária, Jill. Sempre que a vejo…»
- Fica mais estúpido – interrompeu a jovem calmamente – Isto é trabalho… não é um chá dançante!
O homem a rigor resmungou, queixoso:
- Não sei porque é tão mordaz, Jill. Estamos todos no mesmo barco.
- Eu sei como navegar, Weald

BEBE COMIGO O SOL


Detém-te a meu lado. O tempo
necessário dum olhar
sem ontem nem amanhã.
Só luz. Quem não percebe
as cascatas latentes
numa sombra, e não ouve
o crepitar duma urze,
que contas prestará
dos seus olhos? Bebe comigo
o sol na concha do silêncio.

António Cabral em Os Homens Cantam a Nordeste

terça-feira, 15 de maio de 2018

TEU CORPO PRINCIPIA


Dou-te um nome de água
para que cresças no silêncio.

Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.

Invento do meu nada
esta pergunta.
(Nesta hora, aqui.)

Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.

Silêncio e sol - verdade,
respiração apenas.

Amor, eu sei que vives
num breve país.

Os olhos imagino
e o beijo na cintura,
ó tão delgada.

Se é milagre existires,
teus pés nas minhas palmas.

O maravilha, existo
no mundo dos teus olhos.

O vida perfumada
cantando devagar.

Enleio-me na clara
dança do teu andar.

Por uma água tão pura
vale a pena viver.

Um teu joelho diz-me
a indizível paz.

António Ramos Rosa em Estou Vivo e Escrevo Sol

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia