terça-feira, 16 de janeiro de 2018

PELA MANHÃ SE ESVAI A INAGEM TODA


Ricos e pobre, indistintamente:
eis o provérbio sábio.

A si próprio remir-se o homem não pode.
Pagar resgate? Quanto?
Quanto vale uma vida?
E quanto descontar na corrosão?

Morrem juntos o néscio, o insensato
e com eles o sábio.

Pela manhã se esvai a imagem toda.

Mas eu que sei de tudo isto
sou
o animal que recusa o matadouro.

Mário Castrim em Do Livro dos Salmos 

OLHAR AS CAPAS



Sonhar a Terra Livre e Insubmissa

Egito Gonçalves/Luís Veiga Leitão/Papiniano Carlos
Desenho de Augusto Gomes, Vinheta de José Rodrigues
Capa: Armando Alves
Colecção Duas Horas de Leitura nº 16
Editorial Inova, Porto, Fevereiro de 1973

Caminhos Serenos

Sob as estrelas, sob as bombas,
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas
               caminhemos serenos.

De mãos dadas,
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniqüidade
                caminhemos serenos.

Sob a fúria dos ventos desumanos,
sob a treva e os furacões de fogo
aos que nem com a morte podem vencer-nos
                caminhemos serenos.

O que nos leva é indestrutível,
a luz que nos guia conosco vai.                                                      
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,
já que o cárcere não basta
para a ave inviolável,
que temer, ó minha querida?:
                 caminhemos serenos.

No pavor da floresta gelada,
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas

                 caminhemos serenos.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Afirmam que a vida é breve. Engano, - a vida é comprida. Cabe nela amor eterno e ainda sobeja vida.

António Botto

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

OLHAR AS CAPAS


Imitação dos Dias

José Gomes Ferreira
Capa: João da Câmara Leme
Portugália Editora, Lisboa, Janeiro de 1966

Os poetas só têm uma missão – se lhes quisermos assacar qualquer missão, do que muitas vezes duvido: cantarem.
Cantarem o Presente. Amarem o Presente. Insultarem o Presente. Viverem as paixões, as lutas, os amores, a porcaria, as molezas, as incoerências, o nada e o tudo do Presente.
O Presente, o Presente apenas, só o Presente!
Os raros que chegam ao Futuro são os que, mercê de um luminoso toque de génio, conseguem esticar o Presente até lá.
(«O Futuro? Mas o Futuro que não se fixa – e nada se fixa! – é sempre Passado!», murmura-me o exíguo filósofo que me acompanha sempre para me recordar os desesperos  óbvios. Tão óbvios que nem reparamos neles!)

ESTOU FARTO DESTA AMÉRICA


Carta de Jorge de Sena, datada de 22 de Dezembro de 1972, para Sophia de Mello Breyner Andresen:

Estou a cerca de um mês de partir para a Inglaterra, no meu «tour» de conferências por várias Universidades, para maior glória de uma pátria vil, que em lugar de se honrar com isso, se rói da inveja de que sempre viveu a sua mesquinharia. Irei também a Paris, a Rennes e a Bruxelas. E só voltarei em fins de Março. Pelo menos respirarei Europa, farto que estou desta América que perdeu o último comboio da decência e da dignidade. E vê como são as coisas… Ma Alemanha, 95% dos eleitores que são 80% da população compareceram às urnas; aqui só apareceram a votar (por demissão, desespero sem saída, canalhice reacionária, etc.) 53% de um eleitorado que é 75% da população – e cerca de 60% daquilo reelegeu o Imperador (mas não lhe deu e até diminuiu, o que já era minoria dele no Senado e na Câmara, valos lá), o que significa que S. Excia foi eleito por 24% da população, nada mais… E viva da democracia liberal – o pior é que ainda não se inventou outra coisa melhor, embora seja a pior possível. Como se vê, os outros 29% votaram contra, e 50% ficou em cada a ver televisão e a comer o  a sanduiche da deseducação política. Mas não fazes ideia da ignorância do mundo em que esta população é mantida – e os milhares  que o têm visto não são suficientes para mudar as coisas.

Em Correspondência

Nota do editor: o Imperador referido por Sena é Richard Nixon.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Da mesma forma que o Bloco de Esquerda e o PCP têm vendido a alma ao diabo, exclusivamente com o objetivo de pôr a direita na rua, acho que ao PSD lhe fica muito bem se vender a alma ao diabo para pôr a esquerda na rua.

Manuela Ferreira Leite, hoje, em entrevista à TSF

HOSPITAL CURRY CABRAL


Parecem as termas de Fellini, disse ela, a catalã
que não sabia nada dos hospitais
de Lisboa.

De facto, o chão fumava,
um vapor espesso subia-lhe pelas pernas
e acalorava os gatos.
E até um garnisé que por ali passeava em busca
das migalhas das visitas
cantou
desirmanado.

Mas era quase erótico o som da sua voz
como a da vedeta italiana
desse filme barroco
caindo inocente na doença ambulante
levada por maqueiros gordos
e libidinosos.

As palmeiras derramavam um choro
no vento melancólico.
E ela a catalã, jovial e magra,
ia batendo palmas às aves embaraçadas,
e avançava a sorrir
pelas zonas infecto-contagiosas.
Mas não lhe era preciso aplaudir um tal cenário
de figurantes mudos e fantasmagóricos
com os seus roupões azuis
de sida
com os seus pijamas de cinza
e tuberculose.
Bastava-lhe olhar a direito ou fechar os olhos
e perguntar pelo Hotel Barcelona.

Mas ela preferiu tropeçar nos varões com sono
arrastados pelo verde do jardim
e passar rente a precipícios que deslizam deitados
à sombra da morte.

E é preciso amar e partir depressa.
Ou atordoar-se com os perigosos jogos do contágio.
Eu respiro a calma que a desgraça me oferece
entre galinhas-da-índia
a encurtar caminho
nesse antigo lugar de mulheres da vida
arrependidas.

Normalmente vou só e não me engano.
A amiga catalã é um devaneio
numa rambla de encontros tenebrosos
com outra espécie de morte.

Tantas vezes pensei
e o poema não veio ao meu encontro.
Tantas vezes devorei este fumo quente e sensual
que começa por lamber-me as calças
e faz de mim um animal em erecção precoce.
Belas termas, estas, amiga tão distante,
nas tuas quimeras musicais
no teu regaço de coloridas risas de passagem.

Passa comigo e pede um copo de água
ou de cólera, como diz o brasileiro,
àquele rapaz com a morte a prazo.
A menina do filme, essa perversa inocente
Cardinale, fica-te tão bem,
diria ele,
esse jovem director de espectros
que te tira o chapéu
e deixa ver um quisto inquietante
na cabeça pelada de trapezista mortal.
Traz contigo mais música.
E passeia comigo entre pavões rubro-azuis
e corpos que rolam
sentados ou jacentes e avançam
para a saída
da vida.


Armando Silva Carvalho em Lisboas

domingo, 14 de janeiro de 2018

POSTAIS SEM SELO


de que adianta ser pássaro
se não tiro os olhos do chão?

A DOÇURA DOS POENTES



Ah! principezinho, assim fui compreendendo a tua vida melancólica. Durante muito tempo, apenas a doçura dos poentes te serviria de distracção. Tomei conhecimento deste novo pormenor no quarto dia, de manhã, quando disseste:
- Gosto muito do pôr-do-sol. Vamos ver um pôr-do-sol…
- Mas é preciso esperar…
-Esperar o quê?
- Esperar que o sol se ponha.
A princípio ficaste muito surpreendido e depois riste-te de ti próprio. E disseste:
- Julgo sempre que estou no meu sítio!
Com efeito. Quando é meio-dia nos Estados Unidos, o sol, toda a gente o sabe, põe-se em França. Bastava ir a França num minuto para assistir ao pôr-do-sol. Infelizmente a França fica muito longe. Mas, no teu planeta pequenino, bastava-te afastar a cadeira dois ou três passos e contemplavas o crepúsculo sempre que o desejasses…
- Um dia, vi o pôr-do-sol quarenta e três vezes!
E, algum tempo depois acrescentavas:
- Sabes, quando se está muito triste, gosta-se do pôr-do-sol…
- Então no dia das quarenta e três vezes estavas assim tão triste?
Mas o principezinho não respondeu.

Antoine de Saint-Exupéry em O Principezinho

Legenda: desenho de Antoine de Saint-Exupéry

OLHAR AS CAPAS


Primeiros Cadernos

Albert Camus
Nota Prefacial: António Quadros
Livros do Brasil, Lisboa s/d

O tipo que prometia muito e que trabalha agora num escritório. Excepto isto não faz mais nada, ao chegar a casa, senão deitar-se e esperar pela hora do jantar fumando cigarros, deitar-se de novo e dormir até ao dia seguinte. Ao domingo, levanta-se muito tarde e põe-se à janela, a olhar a chuva u o sol, as pessoas que passam ou o silêncio. E assim durante todo o ano. Ele espera. Ele espera a morte. De que valem as promessas, visto que de qualquer maneira…

Nota do Editor: este livro reúne Cadernos I (tradução de Gina de Freitas), CadernosII (tradução de António Quadros) e Cadernos III (tradução de António Ramos Rosa).

RELACIONADOS


Crónica publicada no Diário de Lisboa s/d.

O CACHECOL



A paisagem escocesa no pescoço esgalgado
Um quadro de vento
                               um quadro de frio
uma franja de medo
                              um sorriso coçado
e o silêncio traçado em desafio.
O rosto passajado pendurado num gito
a alma cinzelada num museu moderno.
Ter a palavra exacta
o talento prescrito
e uma écharpe de imagens num postal escrito
duma lua-de-mel nos desportos de inverno.

José Carlos Ary dos Santos em Adereços, Endereços

DITOS & REDITOS


Quem não tem fome de sopa não tem fome de doce.

Rei capitão soldado ladrão, menina bonita do meu coração.

Ter a sabedoria da paciência.

Não há festa nem festança onde não vá a Dona Constança.

O vinho foi dado ao homem para suavizar suas penas.

O que é necessário nunca é um risco.

Não há ninguém tão cego como aqueles que não ouvem.

Barriga vazia não conhece alegria.

FOI HÁ 61 ANOS!


Não temos razões para ter pena dele, mas sim de nós, porque o perdemos.

John Huston, durante o serviço fúnebre.

sábado, 13 de janeiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Montedemo

Hélia Correia
Capa: Ana Leão
Colecção Imagem do Corpo nº 7
Ulmeiro, Lisboa, Novembro de 1983

Mais tarde alguns lembraram que tudo começou naquele domingo seco em que a terra tremeu. Coisa sem importância, num instante sentida noutro instante acalmada, nem mesmo Irene a tonta pensou que lhe servisse de mote em pregação. Um tremor ligeirinho no afrouxar da noite, hora de moribundos e de bêbados, todos pensando que se balouçavam em líquidos maternos, quentes e protectores. Os outros, muito poucos, que estavam acordados: mulheres suspensas do tossir das crias, velhos apunhalados por insónias, tinham ficado na dúvida se fora realmente o chão que se ondeara numa sacudidela ou se tontura provocada por um sangue de repente engrossado ao de cima dos olhos. O padre chegou mesmo a confessar que achara muito estranho terem tocado os sinos apenas com aquele abanãozico. Mas a manhã nasceu radiosa e gelada, e o próprio mar parecia tão sem peso, tão dançarino e limpo de pecado, que o assunto passou ao esquecimento. 

QUANDO A ANGÚSTIA...


Quando a angústia me passa a corda ao pescoço
e das noites em branco
surgem todos os sonhos enforcados,
então apareces,
fantasma som contornos.
Nem sei dar-te o nome.
Apenas o rebate precipitado do coração te anuncia
E uma saudade dura que todo o corpo informula.

João José Cochofel em 46º Aniversário

DO BAÚ DOS POSTAIS


Bansin, na Alemanha.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Quando ouço alguns políticos falarem, pergunto-me se já terão lido um livro inteiro, de tal forma é pobre o seu discurso.

Maria do Rosário Pedreira

ETECETERA


Pela primeira vez, o Fundo de Resolução assumiu que perdeu o valor, 4,9 mil milhões de euros, com que capitalizou o Novo Banco.

Se o vulgar cidadão, que nunca estudos economia ou finanças, percebeu que era assim que ia acontecer, estranha-se - não se estranha nada!... - que os governantes e seus conselheiros não o soubessem.

O título acima, pertence à 1ª página do Diário de Notícias de 31 de Dezembro.

A notícia em si, adiantava que só os cinco maiores bancos fecharam 350 balcões.

CTT

O Movimento de Utentes de Serviços Públicos defendeu que o serviço prestado pelos CTT demonstra uma «degradação como não há memória no país», pelos atrasos superiores a meia hora no atendimento e pelo prazo das entregas, resultantes dos poucos trabalhadores que as estações registam.

Acresce que os trabalhadores que andam a distribuir a correspondência pelas residências,  não estão preparados para desempenharem a tarefa.

Sistematicamente na minha caixa do correio aparecem cartas que se destinam a outros, enquanto que me não chegam cartas que deveria receber.

Dois exemplos recentes:

Não recebi uma factura da VODAFONE.

Estranhando, telefonei para a empresa, minutos e minutos  e minutos à espera, para me dizerem que a factura fora enviada e que me devia dirigir à loja mais próxima para fazer o pagamento.

Na loja da Avenida de Roma esperei três quartos de hora para ser atendido e foi-me dito que têm existido muitas reclamações dos clientes.

Simplesmente, na factura que recebi agora, referente ao mês de Dezembro, debitaram-me 1,50 euros de taxa de «Atraso de Pagamento».

Até hoje, não recebi a carta do CONTINENTE referente aos descontos de Janeiro.

Claro que numa qualquer loja posso pedir a impressão dos descontos, mas nada disto está certo.

Quantas cartas e postais já deixei de receber?

Péssima a qualidade dos serviços prestados pelos CTT.

A privatização dos CTT, uma das muitas coroas de glória do miserável governo de Pedro Passos Coelho, rendeu aos cofres do Estado mais de 900 milhões de euros.

PPD/PSD


Por uma inexplicável bizarria assisti à primeira hora do frente a frente entre Rui Rio e Santana Lopes, transmitido na quinta-feira pela TVI.

Deplorável.

Lembrei-me de uma frase de Maria do Rosário Pedreira:

Quando ouço alguns políticos falarem, pergunto-me se já terão lido um livro inteiro, de tal forma é pobre o seu discurso.

A escolha do novo líder do PPD/PSD é, portanto, apenas uma escolha entre diferentes personalidades, não é uma escolha entre diferentes políticas.

Por isso, quando leio que os debates entre Rio e Santana não apresentaram ideias e apenas ataques pessoais, acho que é mesmo isso que está certo, é mesmo isso que seria de esperar.

Quando no outro século, Mário Soares colocou o Socialismo na gaveta e passou a dedicar-se ao socialismo democrático ou socialismo em liberdade, o caminho estava aberto para, mais tarde ou mais cedo reconhecer, dentro da sua boa consciência burguesa que mais não era do que um social-democrata.

Na medida em que é o Partido Socialista que retém as franjas da social democracia, e o CDS detém as franjas da direita liberal, o PPD/PSD irá, mais ano, menos, irá diluindo-se.

Nenhum dos dois personagens, que amanhã se apresentam para um deles ser presidente do partido, mostra um caldo de cultura e de política que permita inverter qualquer situação.

PENSAR NISSO E NÃO O FAZER


6 de Novembro de 1937

O principal defeito do suicida não é o de se matar, mas o de pensar nisso e não o fazer. Nada é mais abjecto do que o estado de desintegração moral ao qual conduz a ideia – o hábito da ideia – do suicídio. Responsabilidade, consciência, força, tudo flutua à deriva nesse mar morto, vai ao fundo e reaflora futilmente, joguete de todo e qualquer estímulo.

Cesare Pavese em O Ofício de Viver

Legenda: pintura de Edouard Manet

TRUMPALHADAS


As Nações Unidas repudiaram as palavras do presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, sobre o Haiti, El Salvador e outros países africanos, considerando-as «racistas».
Numa reunião do líder norte-americano na Casa Branca com deputados do Partido Republicano e do Partido Democrata, a propósito de um projecto de lei sobre imigração que iria dar vistos a cidadãos de países retirados do TPS, o Estatuto de Protecção Temporária, o chefe de estado mostrou-se irritado com a possibilidade de acolher mais imigrantes desses países, rotulando-os de «países de merda».

OLHAR AS CAPAS



Viagens na Minha Terra

Almeida Garrett
Guimarães & C.ª Editores, Lisboa s/d

Assim o povo, que tem sempre melhor gosto e mais pura que essa escuma descòrada que anda ao de cima das populações, e que se chama a si mesma por excelência a Sociedade, os seus passeios favoritos são a Madre de Deus e o Beato e Xabregas e Marvila e as hortas de Chelas. A um lado a imensa majestade do Tejo em sua maior extensão e poder, que ali mais parece um pequeno mar mediterrâneo: do outro a frescura das hortas e a sombra das árvores, palácios, mosteiros, sítios consagrados a recordações grandes ou queridas, Que outra saída tem Lisboa que se compare em beleza com esta? Tirado Belém, nenhuma. E ainda assim, Belém é mais árido.
Já saudámos Alhandra, a toireira; Vila Franca, a que foi de Xira, e depois da Restauração, e depois outra vez de Xira, quando a tal restauração caiu, como a tôdas as restaurações sempre sucede e há de suceder, em ódio e execração tal que nem uma pobre vila a quis para sobrenome.
- A questão não era de restaurar nem de não restaurar, mas de se livrar a gente de um governo de patuscos, que é o mais odioso e engulhoso dos govêrnos possíveis. É a reflexão com que um dos nossos companheiros de viagem acudiu ao princípio de ponderação que eu ia involuntariamente fazendo a respeito de Vilafranca.

ALGUÉM DIZ TU


Alguém diz tu. Alguém sem nome.
É a terra e o corpo e é o rasto de um sentido.
Alguém diz tu à imagem que se esgarça
à certeza de uma longínqua razão.
Longe. O passado. Nomes, errados nomes de desejo.
Cego de insónia, nem lembrar te posso.
Nem mesmo em sonho saberia ver-te.
És só o pronome, tu, a ondular-te na boca.
norte magnético num desespero em surdina.
És a sílaba que dói a dor solar de um sentido.
A história avança na cabra-cega sem rostos
e eu vivo em ti o tu mais só da minha vida.


Óscar Lopes

Nota do editor: Óscar Lopes não é conhecido como poeta. O jornalista José do Carmo Francisco conseguiu encontrar, possivelmente, o único poema que escreveu.

SARAMAGUEANDO



João Gobern no Diário de Notícias sobre Com o Mar Pelo Meio, correspondência entre Jorge Amado e José Saramago

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Vivemos numa sociedade que acredita que são os sonhos e utopias que nos movem, mas frequentemente são distopias o ponto fundamental para iniciar um caminho. Com a deceção, podemos ser mais autênticos porque parte-se de uma realidade que permite um recomeço. Sem ela, não há recomeço.

José Tolentino Mendonça