quarta-feira, 22 de novembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Prometeu ser virgem toda a vida
Desceu persianas sobre os olhos
Alimentou-se de aranhas,
humidades
raios de sol oblíquos.

Luiza Neto Jorge, epígrafe em Que Importa a Fúria do Mar de Ana Margarida de

                                Carvalho.   

RELACIONADOS

Paris é sempre Paris.
Paris é uma festa, escreveu Hemingway.
Bogart e Bergman, no Casablanca, diziam-se que teriam sempre Paris.
Madame Maigret gostava de Paris no mês de Março.
Charles Aznavour não se faz rogado e canta-nos que em Maio e Outubro é que é.
Charles Trenet traz-nos o Abril de Paris.
E um rapaz do meu tempo, Paul Anka, arrisca tudo em sob os céus de Paris, um hino para amar as pessoas.




OLHAR AS CAPAS


A Amiga de Madame Maigret

Georges Simenon
Tradução: António Lopes Ribeiro
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 53
Livros do Brasil, Lisboa s/d


- Para mim, Março continua a ser o mês mais bonito de Paris, apesar dos aguaceiros, dizia Madame Maigret. Há quem prefira Maio ou Junho, mas em Março é tão mais fresquinho…

AI QUE BONITA!


As pessoas crescidas gostam de números. Quando lhes falais de um novo amigo nunca perguntam o essencial. Nunca vos dizem: «Como é a fala dele? Quais os seus jogos predilectos? Colecciona borboletas?» Perguntam: «Que idade tem? Quantos irmãos são? Quanto pesa? Quanto é que o pai ganha»» E só julgam que o conhecem depois disto. Se disserdes às pessoas crescidas: «Vi uma bela casa de tijolos vermelhos, com gerânios nas janelas e pombas no telhado…» elas não conseguem imaginar uma casa. É preciso dizer-lhes: «Vi uma casa de quinhentos contos.» Então exclamam: «Ai que bonita!»

Antoine de Saint-Exupéry em O Principezinho

terça-feira, 21 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Mãe Ilha
Bibliografia e Iconografia

Coordenação Técnica e Científica: Ângela Almeida
Capa: Atelier Filipe Costa
Edição Fundação Cultural Natália Correia e Câmara Municipal de Lisboa, 1993

Mãe Ilha
IV

(Sempre que ouço piano)

Por lentas alamedas musicais
Chegam-lhe as tuas mãos ledas e leves
Trazem-me a valsa que enchia de cristais
A casa e eras de louça mãe de Sévres.

Lá nas fajãs partiu-te um sopro a mais
Que a morte é cio de belezas breves,
Mas, ó mistério de dedos siderais!,
Um triz de música e uma azália escreves.

Mãos que me levam lácteas pelos cabelos
(Lembras-te? eram anéis dos teus anelos)
Para a ilha. No teu seio o mar arfava.

Mãos doceiras das flores com que cobrias
O meu sono. Mais música! Para os dias
De opala, mãe de mel, falta uma oitava.

EXISTÊNCIAS MAL GOVERNADAS


5 de Maio de 1936

Não é esta ou aquela acção que constitui pecado, mas uma existência mal governada. Há os que pecam e os que não pecam. As mesmas coisas (odiar, fornicar, preguiçar, maltratar, humilhar-se, enraivecer-se) são pecados nuns, noutros não.
Ter pecado quer dizer ficar convencido de que certa acção é, de um modo misterioso, criadora de infelicidade para o futuro; que tal acção ofendeu alguma lei misteriosa da harmonia e não é mais do que um elo numa cadeia de desarmonias precedentes e futuras. Viver é como fazer uma longa soma em que basta ter errado o total das duas primeiras parcelas para já não nos conseguirmos safar. Isto é, engrenar numa cadeia dentada; etc.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

PAPÉIS DATADOS



Amar a vida é não ter medo da morte.
Que venha quando entender, mas que não seja muito cedo mas também não muito tarde.
Maria Lamas numa entrevista ao Diário de Lisboa de ontem.
«Embora tenha sofrido muito, amo a vida. E tenha pena de morrer.»

(14 de Fevereiro de 1970)

Legenda: Maria Lamas

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

NOTÍCIAS DO CIRCO


Ana Gomes, eurodeputada do PS, com base em contactos que tem efectuado em Bruxelas, diz que «há hipóteses muito sérias» de Mário Centeno vir a assumir a presidência do Eurogrupo e que «isso seria bom para Portugal.»
Deviam estar todos muito quietinhos!

E isso de ser bom para Portugal  é uma treta.
Nunca nos poderemos esquecer de um tal de Durão Barroso  - «sigam o cherne» - que teve, ética e moralmente,  um desempenho miserável e se limitou a engrossar a conta bancária.

CANÇÃO BREVE


Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.

Tudo me prende do mesmo triste amor
que há em saber que a vida pouco dura,
e nela ponho a esperança e o calor
de uns dedos com restos de ternura.

Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia.

Da Antologia Breve publicada em 21 Ensaios Sobre Eugénio de Andrade

Legenda: fotografia de José Rodrigues em 21 Ensaios Sobre Eugénio de Andrade

OLHAR AS CAPAS



21 Ensaios Sobre Eugénio de Andrade
Seguidos de Antologia

Vários autores (Alexandre Pinheiro Torres, António Ramos Rosa, Eduardo Lourenço, Gastão Cruz, Jorge de Sena, José Fernandes Fafe, José Pacheco Pereira, Mário Sacramento, Óscar Lopes, Vergílio Ferreira, entre outros.
Prefácio: Manuel Alberto Valente
Capa: Armando Alves
Colecção Civilização Portuguesa nº 10
Editorial Inova, Porto s/d

Contra el silencio y el bulício invento
La Palabra, libertad que se inventa y me inventa cada dia.
Octavio Paz

Apetecia-me escrever que, após Fernando Pessoa, era Eugénio de Andrade o maior poeta português do século presente. Apetecia-me escrever, mas não escrevo. E no entanto, passado o magnífico rebanho do portentoso guardador, a poesia nacional – alicerçada, sem dúvida, num índice de qualidade bastante saliente – poucos nomes teve e tem que brilhem tanto com o dele. Poucos? Três ou quatro apenas! Os suficientes, justo é confessá-lo, para que a mão me trema e o coração se sobressalte no momento de arriscar a parada suprema…

(Do prefácio de Manuel Alberto Valente)

E PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

domingo, 19 de novembro de 2017

O ESPÍRITO DOS PORTUGUESES


Depois das histórias, mais ou menos pitorescas, que Rómulo de Carvalho vai contando aos seus tetranetos, irá entrar numa parte da história que tem o seu quê triste e complicado.
Rómulo irá abordar, com mágoa, o que passou a acontecer nas escolas e liceus. Mais concretamente a sua experiência no Liceu Pedro Nunes onde era professor. Nessa parte da história, entraremos nos próximos tempos.
Antes, na página 308 das suas Memórias, deixa esta reflexão:

«Esta euforia da Liberdade, de cada um poder fazer o que lhe apetecer sem ter que dar satisfações a ninguém, ajustou-se tão bem ao espírito dos portugueses como antes se ajustara, nos tempos da ditadura, o peso da servidão.

UM MINUTO DA SUA ATENÇÃO

Este anúncio demora sensivelmente 1 minuto a ler.
Uma torneira aberta durante 1 minuto pode gastara 12 litros de água.
Segundo as nações Unidas, um ser humano precisa de 110 litros de água por dia.
Fechando a torneira 1 minuto poupamos 12 litros de água. Se todos o fizermos, poupamos 120 milhões de litros num minuto. O suficiente para garantir as necessidades básicas diárias de 1 milhão de portugueses.

OLHAR AS CAPAS


Poirot Desvenda o Passado

Agatha Christie
Tradução: Edison Ferreira Santos
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 1
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Hercule poirot olhou com interesse e curiosidade para a jovem que era introduzida na Sala.
Nada havia de especial na carta que ela lhe escrevera. Era um simples pedido de entrevista, sem que nada sugerisse qual o assunto a tratar. Uma carta breve e séria. Apenas a firmeza da caligrafia indicava que Carla Lemarchant era nova.
E, agora ali estava em carne e osso – uma rapariga alta e esbelta, que mal havia trasposto a casa dos vinte anos. O tipo de mulher que se gosta de olhar mais de uma vez. Apresentava-se bem vestida, um casaco bem talhado, de alto preço, saia e peles. A cabeça bem equilibrada nos ombros, sobrancelhas regulares, o nariz de corte delicado e queixo resoluto. Parecia muito viva. Era a vivacidade, mais doq eu a beleza, que constituía nela o traço predominante.
Antes da sua entrada, Hercule Poirot sentia-se velho… Agora sentia-se rejuvenescido, vivo, ardente!
Quando avançou para cumprimenta-la, sentiu os seus olhos cinzento-azulados estudarem-no atentamente. Ela examinava-o com grande interesse.
Sentou-se e aceitou o cigarro que ele lhe oferecera. Depois de acender o cigarro, ficou sentada um ou dois minutos, a fumar e a examiná-lo com olhar grave e inquisitivo.
Poirot disse, delicadamente:
- Sim, é preciso decidir primeiro, não é?
- Queira desculpar, não ouvi bem – disse ela.
A sua voz era graciosa, com uma leve e agradável aspereza.
- Procura verificar primeiro se sou um charlatão ou o homem de que precisa, não é verdade?
Ela sorriu e disse:
- Bem, sim, é mais ou menos isso. Sabe, M. Poirot, o senhor… não é exactamente como eu o imaginava.
- E sou velho, não é isso? Mais velho do que imaginava?
- Sim, e isso também. – Ela hesitou. – Estou a ser franca, bem vê. Eu quero… é preciso que eu tenha… o melhor.
- Fique tranquila – garantiu Hercule Poiror. – Eu sou o melhor!
- O senhor não é muito modesto – replicou Carla. – Não tem importância, estou inclinada a confiar na sua palavra.
- Como sabe, disse Poirot serenamente – não devem apenas empregar-se os músculos. Não preciso de curvar-me e medir as pegadas, apanhar as pontas de cigarros e examinar as hastes recurvadas da grama. É suficiente, para mim, sentar-me na minha cadeira e pensar. É isto – e deu uma leve pancada na cabeça ovóide – é isto que funciona!

sábado, 18 de novembro de 2017

DESESPERO



Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.

Não eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.

Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu

A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o esperma que te dou, o desespero. 

José Carlos Ary dos Santos de A Liturgia do Sangue em Vinte Anos de Poesia

OLHAR AS CAPAS


Retratos de Hábito

Nuno Félix da Costa
Versão inglesa de Anne Morrison
Capa: Manuel Rosa
Assírio & Alvim, Lisboa, Dezembro de 1983

O povo português é, como muitos, um cruzamento de raças, percursos e destinos que confluem no fatalismo da localização geográfica isolada e extremada a uma península no fim da Europa. Imagino as pessoas que aqui foram ficando: as perfeccionistas e insatisfeitas à procura da terra prometida finalmente achada ou conformados com a impossibilidade de a encontrar ou sem ânimo para a caminhada de regresso; as escorraçadas doutros espaços mais centrais ou vencidas e decididas a começar de novo; as que levaram até ao fim o gosto pela viagem e que aqui ficaram rodeadas de mar excepto no caminho que as trouxe; as que vieram por mar, já tudo conheciam e aqui ficaram; e as que naufragaram e não puderam não mais regressar.
Este perfil de pessoas parece consistente com o que são as atitudes (hábitos interiores) dominantes na nossa alma: a esperança vaga num futuro “ melhor” que há-de vir “quando deus quiser” e pelo qual não há muito a fazer para já, onde radica o sebastianismo e a Nossa Senhora de Fátima; a necessidade de motivações grandiloquentes como as da embaixada de D. Manuel ao Papa ou as do Convento de Mafra de D. João V, necessidade que nos faz sair do habitual miserabilismo minimalista; a aceitação do destino, o fado, que tem a ver com o fatalismo inclusos nos nossos costumes brandos e tolerantes, pouco reactivos do “tinha que ser”, “estava escrito” e, como sequência, “não havia nada a fazer”.

Uma parte significativa das fotografias foi tirada em festas religiosas.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

VELHOS RECORTES


Recorte do Diário de Lisboa-Juvenil de 4 de Fevereiro de 1969.
Citação de O Despojo dos Insensatos de Mário Ventura.

RELACIONADOS


Viana do Castelo. Procissão do Mar. 1983.

Ílhavo. Partida para um enterro. 1982.

Legenda: fotografias de Nuno Félix da Costa em Retratos de Hábito.

NÃO TENHO PLANOS, NEM PROMESSAS


Não tenho planos, nem promessas, nem
filhos que nos convidem para almoços
de domingo - a minha ideia de família
resume-se a um retrato velho preso numa
gaveta; e do amor possível sei tão-só

o que li nos romances que me salvaram
da desordem quando o meu tempo
andava de ferida em cicatriz. Mas guardo
ainda muitos por estrear para essa estante

que ergueste no corredor como uma casa
nova. E trago portas abertas no coração:

se ainda não sabias, és muito bem-vindo.

Maria do Rosário Pedreira em Poesia Reunida

Legenda: imagem Pinterest

DIAS DE ACTIVIDADE TRÁGICA


A 23 de Dezembro de 1961, Mário-Henrique escreveu uma carta - «à noite, como sempre», desde S. Domingos, a Isabel a «doce Maruska, o amor querido», e em que chega a interorizarque qualquer coisa acontecerá, «voltar a estar vivo e a acreditar na manhã e nas estrelas».
A carta é longa, a felicidade fê-lo  «andar toda a manhã a berrar desafinadamente velhas canções russas, certamente com grande ofensa dos vizinhos».
Mas terá existido um telefonema de Isabel.
Por certo, uma qualquer ponta de arrependimento, e podemos ler em final de página:

Querida

O teu telefonema desta manhã tirou um pouco da alegria desta carta, mas ela já estava escrita e assim vai.

Já em Janeiro do novo ano, Mário volta, desesperadamente, à escrita, sem indicação de onde escreve:

Ouve, Isabel, tenho pensado, pensado muito nestes dias de actividade trágica (a palavra é verdadeira, caríssima) e visto que tenho que ser lógico e honesto comigo mesmo, verifiquei que não pode realizar-se connosco aquilo que eu, no meu desejo de ter direito a um pouco de felicidade, pensei que seria verdade. Se não vê: não podes, nunca poderás suportar um homem como eu. Se pudesses, já o tinhas decidido firmemente durante estes três ou quatro meses em que nos conhecemos. Isto é verdade e tu sabe-lo. Sabes isto, assim como sabes que a minha companheira terá de ter a coragem que teve a Dietlinde: abandonar tudo para seguir o homem que ama. Mas, minha cara, sê honesta contigo mesma, em ti não há amor suficiente para me seguir. Não é uma crítica, querida Maruska do sorriso bonito, é um facto que eu verifiquei com o meu imundo espírito dialéctico, Isabel, eu não partilho nada com ninguém; dou e quero ter. De outra maneira, não. Sou talvez aquilo a que se chama um lobo solitário e, para esses animais amargos e refilões, raramente aparece a loba que os quer seguir, Há que lutar contra toda a lcateia, menina bonita, tanto o lobo como a loba, e isso é duro. Quanto ao lobo, geralmente é animal já pelado e cheio de cicatrizes, mais dentada menos dentada, tanto faz. Mas a loba, essa terá uma vida de inferno – e amor violento – que não é fácil de aceitar. E aqui tens tu mais uma história que bem poderia ser do Jack London.

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

CAEM


Caem. Direitas à terra, crianças
que se dependuraram nas varandas
a secar. Prumos de sangue,
suicidadas pelos pais. Entre o povo
é assim: sempre sobram
mais filhos para deixar cair
no esquecimento. É o que acontece
por maternidades indesejadas
de noivas de pechisbeque

Paulo da Costa Domingos em Resumo: a poesia em 2010.

OLHAR AS CAPAS


Que Importa a Fúria do Mar

Ana Margarida de Carvalho
Capa: Rui Garrido
Teorema, Lisboa, Maio de 2013

Tersa gente esta, de almas baldias, vontades torcidas pelo frio que aperta, amolecidas pelo sol que expande. Ando aqui a ganhar a morte. Nestes campos de giesta, engatadas raízes no chão, tão presas de seiva e vontade que não as pode a força de um homem arrancar. Ervas daninhas mais difíceis de vergar do que um pinheiro bravo à machadada. O pinheiro deixa o coto apodrecido, vã ruína orgânica, mas as raízes das giestas mantêm-se sorrateiras, infiltrantes, debaixo da terra, a aguardar melhor ocasião para levantar haste. E, mal um homem vira costas, lá estão elas, sob os pés, soturnas, insinuantes, sôfregas de todas as pingas de água, a saciarem-se, a exaurirem as lavouras, sem sequer a gentileza de uma sombra, só pasto de insetos, refúgio de furões, conspiração do matagal. Assim ando eu. Entre mato rasteiro e bravio. Que a vida sempre me foi um ferro de engomar. Quando há um prego que se destaca, martela-se. E no entanto, mesmo amolgado e enterrado, continua lá.  
De quem é o carvalhal?
Ando aqui a ganhar a morte. A vergar-me a cada passo, nesta rabugem vegetal, com involuções de ouriço-cacheiro. Se me tocam, eu abro pico em todas as frentes. Que eu nunca pedi nada. Nunca encomendei sermão. Nunca enclavinhei a mão par dar um murro na mesa. Nem me caberia esmurrar a mais dilecta peça de mobiliário da casa. Onde os manjares eram pousados de mansinho  e arrebatados em silêncio, aspirares de estagnação e respeito – e, no final, as migalhas ajuntadas e receosamente pinçadas entre o indicador e o polegar.
Graças vos dou, meu Deus, por me teres dado de comer e beber sem o merecer, dai-me o céu quando morrer.
Rogávamos-Lhe o céu, ambicionávamos-Lhe a terra. Não a leveza dela em cima de caixão, que esses póstumos torrões não aconchegam, mas afrontam quem nunca teve terra em vida à mão de semear, e agora conquistava sete palmos dela, abençoada, quando os dedos gélidos e descarnados repousavam, entrelaçados, sobre o peito. Inúteis até para arrancar raízes. Tanta terra no mundo para morrer, tão pouca para viver.
Leva-me devagar. Que não fui tido mas fiz achado.
A alma é do criador e da santíssima virgem. E da terra também.
O achado é meu.
E de quem é o carvalhal?

POR QUE ME ABANDONASTE?



I

Por que me abandonaste?

Clamo por ti de dia e não me respondes
nem de noite sossegas os meus sonhos.

Troçam de mim só porque confiei:
- Ai confiou? Agora que se entenda!

Numerosos os touros me rodeiam
e as feras de Basan.
Sou a água que se derrama
coração de cera a desfazer-se
é de barro cozido esta garganta.
Eu magro, todo ossos.
Sempre sobre a minha alma há uma espada
há as patas dos cães.

Responde: sou verme ou homem?

II

Direi o vosso nome aos meus irmãos.
Direi, na grande assembleia.

Hão-de saciar-se os pobres
erguer-se os corações.
Desde o ventre da mãe te pertencemos.

Os que do pó regressam, te saúdam.

Mário Castrim em Do Livro dos Salmos

Legenda: fotografia de Vivian Maier

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

NEW YORK 1970


Vi o Hudson
E a sua pele de pantera escura

Vi o Hudson
E a sua pele de pantera escura

Atravessei Harlem às onze da noite
Vi rostos e rostos e rostos negros
E não ouvi «jazz»
E não ouvi ninguém
Cantar ~blues»

Atravessei Harlem
Por entre uma multidão imensa
Sentada às portas

Atravessei Harlem
Noite fechada
E não ter ouvido ninguém tocar «jazz»
Não ter ouvido ninguém percorrer lentamente
O rio interminável de um «blue»
Foi como ter ouvido

Um silêncio de morte

No tumulto das vozes

Alberto de Lacerda

Publicado no Diário Popular de 13 de Agosto de 1970

OLHAR AS CAPAS


Os Crimes da Viúva Vermelha

Carter Dickson
Tradução: Baptista de Carvalho
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 24

- Tairlane fixou a atenção nos pequenos navios de papelão. Estudou a disposição das peças e pensou que se fizesse avançar um caça-minas apoiado por um couraçado, poderia talvez aniquilar as defesas costeiras de H,M. Doía-lhe a cabeça e sentia as mãos pesadas como ferro. Lembrou-se de uma conversa que tivera, ainda recentemente, e declarou:
- Miss Brixham ficará ao lado do marido.
- Do marido?! – exclamou Sir George, surpreendido.
- Sim. Ela e Arnold eram casados secretamente, - continuou Tairlaine. – Foi ele próprio quem o insinuou. Miss Brixham ficará ao lado do marido; mal procederia se não o fizesse.
- E depois? Ficará viúva?
A mão de Tairlaine hesitou sobre o tabuleiro.
- Sim. É precisamente por isso que todos nós nos devemos ficar solteiros… É a sua vez, Sir Henry. Eu já joguei.